sábado, dezembro 16, 2006

O abnegado.


Vai acabando o ano. E todos já começam a enfeitar a árvore ou outra coisa que possa receber luzes, como o portão e a janela. Alguns compram presentes e outros os recebem. Eu mesmo me darei alguma coisa. Um sapato, talvez. Pra melhor pisar na velharia do mundo. Ou um novo par de óculos para que eu possa ver com mais clareza, sem névoa, o desassossego. Ou até mesmo um velho livro sobre um tal de Pantagruel. Um presente que me dê algum alívio, algum descanso. Talvez algumas horas de sono no hotel mais silencioso da cidade.

Ufa! Chega!

Semana cheia de controvérsias. Mas vai terminando bem, mesmo que haja ainda uma ou outra pendência... Mas a boa é que o nosso atrapalhado presidente da república finalmente sancionou o meu aumento, que já vale para o próximo pagamento. Ufa! Um saco de cimento simplesmente desapareceu de minhas costas. E aumento é um tipo de coisa que sempre cai bem.

O que não vai bem é brigar com... Bah! Deixemos agoras as rusgas e finalizemos logo a semana, que já estou um maltrapilho. E o fim desta semana traz De Olhos Bem Fechados.

Segundo a opinião deste e de outros cinéfilos, De Olhos Bem Fechados é o mais tocante filme de Kubrick. Sei que a comparação é difícil, mas é até bem fácil entender que se trate do filme que mais fala a cada um dos sujeitos na platéia. Afinal, o que faz Kubrick é descrever (e de modo algum explicar) o que ocorre dentro destas cabeças atadas a outras cabeças, atreladas pelo amor, pelo sexo, pela desconfiança, pelo ódio e pela carência. Cada uma daquelas situações e cada um daqueles personagens de Eyes Wide Shut é mesmo a metáfora ou a formulação onírica deste pânico mental, o qual nos guia por um tênue fio de nylon, entre poços de desejo, obrigações, honra e ilusão.

Como disse abaixo, não é fácil, e ninguém nos disse que seria. Mas Kubrick diz ainda mais: além de difícil, é incompreensível.



P.S.: não encontrei um bom vídeo de Laranja Mecânica. Que me perdoem todos. Todos.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Vez ou outra, o medo.

Quem já viveu o suficiente, sabe bem o que é ter medo. Aquele medo assustador de perder quem se ama. De voltar a caminhar procurando, feito um maníaco, pelo amor que preenche a nossa própria vida - que é de alguma maneira a razão desta própria vida. Medo de voltar a ter no peito um estrago que somente alguns anos podem ajustar - e ajustar, não curar. Ferida feia jamais se cura. É somente sobreposta por outras.

Que já amou como eu agora amo, sabe do quão é difícil recuperar a vida, depois de uma separação que não desejávamos. Alguns amigos, leitores deste blog aliás, já experimentaram desta detruição. Amavam, mas foram moleques, cretinos ou sei lá mais o quê. Passaram depois anos como autômatos, verdadeiros andróides de mágoa e arrependimento. E por quê? Porque somos todos profundamente desastrados, egoístas e, sobretudo, cegos. E magoamos aquelas criaturas que amamos... porque somos desastrados, egoístas... cegos.

Quem já passou por isso entenderá muito bem o que digo. Mea culpa, mea culpa. Não obstante a inutilidade que é reconhecer cada um dos erros que a gente já cometeu pela vida, sem procurar por desculpas ou amenizadores. Tal qual a história dos caras que queimaram pessoas. Qualquer justificativa será, ainda e certamente, um desaforo. Será um motivo ainda maior para ampliar e determinar a culpa. Danem-se os motivos. Erramos, fizemos merda, cagamos. Ora, que absurdo não perceber! Porra, será que é preciso ser muito maduro pra reconhecer que somos danosamente imperfeitos? Bem o somos, sempre. Eu, que já fiz bobagens, das mais diversas, e já gritei e perdi o senso, já falei o que não se diria nem em briga de assassinos; eu, que já cometi absurdos, por falta de pensar direito, de entender direito o que é essa difícil vida; "eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante"; eu verifico que 30 anos ou 60 não bastam para fazer de um moleque, um homem, no sentido mais íntegro do termo.

Porra! É difícil demais andar certo pelos caminhos, sem ridiculamente tropeçar nos tapetes, engasgar em palavras e conceitos que nos pareciam corretos; sem se sentir ridículo, humanamente ridículo. Arre, que nunca há arrogante que não encontre o chão, depois de um tombo que se poderia evitar, mas cujos olhos estavam voltados para o alto.

Quem já errou nesta vida, e comeu depois um prato de sopa que o próprio capeta temperou, sabe bem o que é o medo. Quem ama e recebe este mesmo amor em troca, dia pós dia, deve bem saber. Ou a qualquer hora, diriam alguns, será muito tarde. E a vida voltará àquela escuridão solitária.

Não é mesmo fácil. Mas não me lembro de ninguém ter dito que seria.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Tapas e beijos.

Diz a lenda que Ike metia um sarrafo na frágil Tina Turner. Mentira. Pura invencionice dessa gente que deseja sempre encontrar um monstro no pobre diabo apaixonado. Coisa da mídia pra vender revista. Parece-me que o tal Sonny também descia o braço na bela Cher. Ou teria sido ele o falecido de sei lá o quê, deixando a cantora viúva? Hum... Não sei ao certo e não é algo que bem me preocupe. Mas digo tal coisa pra que reflitamos quanto à condição desaforada dessa gente. Cantam juntos, compõem juntos, ganham grana juntos, vão a todas as paradas nervosas juntos, têm mansões juntos: e ainda conseguem brigar! Ora! Aqui em casa dá pra entender. O IPTU, o tédio profissional, os IPVAs, o devagar das conquistas... (Não, nada disso. Injustifiquemos sempre as malditas brigas. E sejamos divertidos mesmo na pindura e no fim-de-mês todo gastado na farra. Acalmemos os nervos, ó mulheres!) Mas casais apaixonados são mesmo bestas. Brigam, gritam, almadiçoam, cospem, arranham, apertam, agridem, desprezam-se, escaneiam-se e, logo mais, desejam-se. Gente estranha. Não sei se é o caso do povo citado acima. Nem sei se é o meu caso. Talvez. (Será o seu caso, leitor? Claro que será, se colocarmos uma certa condição para a pergunta: "de vez em quando"... Natural que seja. De vez em quando qualquer casal tem uma daquelas lascadas. Rusga de se dizer sandices e de se esparramar inocentes objetos pelo chão. Ora, de vez quando aparece uma merda que a gente sempre pisa sem querer. )




Ouvimos Ike & Tina, com os clássicos Proud Mary e River Deep, Mountain High. Coisa realmente boa.

Idéia atrasada.

Esta semana eu deveria, desde domingo, ter postados vídeos de clássicos casais da história da música pop. Mas a preguiça e/ou a falta de tempo não me permitiram. Começos hoje, então, com Sonny & Cher, e dois vídeos muito bons: Little Things e Little Man. Casal recheado de bons discos. Que, tal qual os outros casais que aparecerão por aqui, quando separado, rendeu bem pouca energia para a música moderna.


O Escritório.

A partir de conceitos freudianos, posso dizer que meu escritório é a parte concreta de meu intelecto. Quando confuso, confuso ele está. Quando calmo, calmo está. Quando qualquer coisa, qualquer coisa estará, pois é o real reflexo daquilo que se passa em minha mente. Muitos livros, discos, papéis, objetos e fotos. Tudo em desordem, restos de cigarros pelo chão, violões, pratos com resto de uva e xícaras em que bebi café, há alguns dias. Mas nem sempre é assim, confuso, feio. Por vezes fica orgazinado, limpo e eu posso encontrar o que quero, sem precisar revirar o entulho intelectual que agora há. Vejo alguns sapatos, algumas revistas velhas que eu já considero lixo, mas me vejo incapaz de efetivamente jogá-las em algum cesto. O próprio cesto, ao lado de minha mesa imunda, está repleto, transborda uns velhos papéis que identifico como pedaços de jornal.

Mas nem sempre é isso. Um escritório pós-tufão, pós-terremoto. Na maior parte das vezes recebo aqui os meus amigos. Falamos de tudo o que nos interessa, há tantos anos. Eles bebem de alguma bebida que eu mesmo não bebo, mas sempre as tenho, para os amigos tão somente. Fumamos nossos cigarros e ouvimos as boas músicas daqui.

Vez ou outra é a minha mulher que aqui me vem visitar, nesta minha caverna, protegida pelos olhos de um Elvis e por um grande quadro do Quarteto Fantástico. Mas ela vem pouco. Aqui é mesmo claustrofóbico... Digo, nem sempre é. Há vezes que aqui é o canto mais divertido da casa - uma verdadeira táboa de prazeres. Uma boa televisão, os canais da NET, uísque e cigarros. E um lugar para se cantar, no videokê instalado no PC. Aqui se canta Tu me Acostumbraste e Misery. Às vezes se canta Ziggy Stardust. Este escritório é um lugar de se ficar bobo.

Aqui eu escrevo minhas histórias, releeio meus poemas e, sobretudo, canto todas as canções que desejo. Aqui eu penso e desisto de pensar. E agora, engasgado de pensamento, vejo o escritório, extenção de minhas idéias, numa baguça dos diabos, sem que eu tenha a menor inteção de mudar alguma coisa. Ao menos hoje.

Sábado talvez.

Queimem-no! Queimem!

Um sujeito infeliz queimou um casal e o pequeno filho de cinco anos e ainda uma outra mulher. Queimou, como todo mundo já deve saber, dentro de um automóvel. Foi capturado e responderá o processo devidamente encarcerado.

É um exemplo de como há gente não merecedora de liberdade. O tal sujeito, pelo que li em algum jornal, já teve suas condenações, por crimes anteriores, e cumpriu tão somente um pequena parte da pena. Voltou a andar pelas ruas, desorientado e estúpido. E este mundo está cheio de gente que, efetivamente, não merece a liberdade. Não sou jurista e muito menos me preocupo com os ajustes que poderiam ser feitos na lei penal desta porra de país. Mas, decididamente, um pouco de criatividade nos faria bem. Um pouco de sadismo, até.

E digo isso não porque seja pouco humanista, mas por ser o contrário: sou daqueles que enchergam a vida com olhos grandes, que sente um enorme prazer com essa coisa de viver e gostar de coisas. E imaginar que de repente um desafortunado possa fazer mal a alguém que amo, ou mesmo a mim, que sou daqueles que não gostam de matar nem mosquito - simplesmente porque o sujeito teve a autorização de algum juiz para cumprir a pena em liberdade.

É o caso do tal Chapinha, ícone dos assassinos idiotas, que, por ser apenas uma garoto, segundo a lei vigente, poderá a qualquer momento repetir a dose com outro casal... Tudo isso é a inveja que faz? É a miséria? É raiva? Não deveria nos importar o que é. Não deveria servir, ao menos, de desculpa ou amenizar a pena de qualquer um. Mesmo porque uma coisa é roubar, outra é queimar gente viva.

*

A solução seria o desterro? Seria a pena de morte com enforcamento? A violência nasce no peito do sujeito, na sua profunda mediocridade. Na sua incapacidade de perceber que a liberdade é o bem maior nesta merda de sociedade desconcertada.

Ou como me diria um velho amigo: é a guerra! A guerra é contra o obscurantismo, contra a miséria humana. Uma guerra que vem sendo travada há alguns milênios e não parece estar chegando ao fim. Se sabe apenas que enquanto houver quem explore, haverá quem se revolte.

Enquanto houver gente, haverá merda. E quem dela se alimente.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Aquiles em Tróia.

Achilles, fabulosa animação de Barry Purves, vencedora de inúmeros prêmios, inclusive do BAFTA em 1996, conta em 12 minutos a história de Aquiles, na guerra descrita por Homero. Uma animação estupenda e tudo o mais. Mas somente assistindo, o nobre leitor saberá o quanto a parada é boa. A animação, abaixo, está dividida em duas partes. E quando der na telha, blogo mais uns vídeos desse sujeito indicado ao Oscar de melhor animação em 1993, por Screen Play, e em 1999, por Gilbert & Sullivan, The Very Models.



Grandes menores.



Outros dois trabalhos de Kubrick, os quais seriam supostamente obras menores se comparadas a um conjunto que tem 2001, Uma odisséia no espaço, Laranja Mecânica, Spartacus, O Iluminado e, sobretudo, De Olhos Bem Fechados, aquele que julgo ser o melhor filme dos anos 90 - imaginemos que maravilha seria se Kubrick tivesse vivido um pouco mais e o pudesse ter finalizado. E se pudesse ter dirigido AI - Inteligência Artificial, filme estupidamente estragado, que tem a curiosidade de ter os melhores 15 minutos iniciais da história da Ficção Científica, tendo todos os minutos restantes como os mais intragáveis. E que tivesse feito outras coisas mais, outras provocações.

Fellini e Hitchcock são outros que bem poderiam estar vivos. E Fritz Lang. E Glauber! Mesmo porque é evidente que o cinema passa por uma crise criativa. O efeito Matrix, resultado do efeito Pulp Fiction, vai perdendo a força. Não há conjunto, não há proposta estética inovadora, além daquelas que existem pela parafernalha tecnológica. Tudo anda desanimado. O cinema intelectual, experimental, está realmente chato. Ou forçosamente restrito. E são raros os filmaços, do quilate de Closer, do veterano Mike Nichols, e de Lost in Translation, de Sophia Coppola, dois exemplos de clássicos modernos, tal qual, em sua época, é clássico Casablanca.

Post Scriptum: vídeos de Dr. Strangelove e Full Metal Jacket.

Não sofra um derrame, pobre diabo.


De repente, não mais que de repente, todas as imagens deste blog, postadas nos últimos trinta dias, desapareceram! Que faço? Devo ser prudente e esperar, para que tudo se arrume mais tarde, sei lá como. Devo começar a gritar, dizendo mesmo toda sorte de palavrões cabeludos, imundos, ofensivos, grotescos? Devo calmamente, feito um paciente monge tibetano a plantar papoula, recomeçar, recolocar cada pequena imagem? Ou devo mesmo surtar...

Instantes depois...

Ufa! Estavam lá, as imagens. Voltaram também de repente, sem alarde. Bom. Seria insuportável tudo recolocar, quando há tanta coisa nova pra se fazer. E este episódio banal ao menos me trouxe uma certa reflexão: caso este blog entrasse em total desgraça, por problemas nos gigantes servidores do Blogger, eu teria paciência pra recomeçar? Teria ao menos paciência para reestruturar alguma coisa, recolocando vídeos, pesquisando pelas mesmas imagens, pelas capas...? Hum, bem creio que não, apesar do apreço que tenho pelo que já fiz por aqui. Em verdade, acho que alteraria toda a coisa, iniciaria um novo blog, com outro conceito, outra razão. Talvez um blog erótico e imundo. De muito baixo calão. Nele eu somente escreveria sobre essa infindável fodeção que há no mundo. Nada de Arte. Nada de nada. Só gente pelada e enlameada de suor.

E eventualmente imagens de lugares bacanas pra se visitar.

Mais Novak.

Vasculhando a rede, em busca de imagens de Kim Novak, encontrei um sítio "irado", como diria algum jovem deste país. Um sítio com centenas de capas de revistas, americanas, dos anos 20 aos anos 50. Pra quem gosta da arte, um prato cheio para pesquisa e degustação. Aqui, uma leve amostra, com as quatro capas que encontrei de Kim Novak. Mas há mais, muito mais.

Visitem então Vintage Movie Magazines. E percebam como há capas que justificam qualquer conteúdo. Aliás, há revistas que só valem mesmo pelas capas. Sempre é assim.

58

Alguns amigos me acusam de nacionalista, como se tal qualidade fosse afinal de contas um desaforo ao bom senso. Mas o sou, sim, pairando entre uma certa admiração e uma forte hojeriza. Um nacionalista consciente da mediocridade de sua gente, da fragilidade de tudo o que nos cerca. Creio eu, até, que a minha relação com a pátria seja a mesma com a arte sacra. Sou ateu, mas sou capaz de ouvir longas missas de Mozart e admirar cânticos dos mais diversos. Mesmo as igrejas me agradam. As considero belas, sem no entanto ser tomado pela misericórdia ou pela culpa.

Desta mesma maneira, gosto das bandeiras, brasóes, hinos e tudo o que possa remeter a esta porcaria de país. Sendo cético e amplamente descrente. Sem contaminar, no entanto, a apreciação artística. Dentre as obras do gênero, nenhuma me toca mais que o Hino à Bandeira, de autoria de Antônio Francisco Braga e lírica de Olavo Bilac.

Creio até que sou um dos poucos sujeitos deste país que escuta tal hino, ocupante da 58ª colocação entre as cem que mais me comoveram nesta desencontrada vida, como se ouvisse um som do Radiohead ou do John Coltrane. Ouço e canto, assovio. Nem penso em como tudo é um colapso, uma grande bosta enfeitada de açúcar... Um açúcar que nem dá pra todo mundo, bem o sei.

Obs.: ouçamos uma versão bem inferior, cuja interpretação desconheço, àquela que costumo ouvir, da Banda Nacional. Por algum motivo bizarro, não consigo levar tal versão ao instável Goear. Se eu conseguir, faço a substituição. A versão abaixo carece de certa virilidade.



Hino à Bandeira

Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da pátria nos traz.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil.

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.

Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.

Sobre a imensa nação brasileira,
Nos momento de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira,
Pavilhão da justiça e do amor.

(Antônio Francisco Braga e Olavo Bilac)

terça-feira, dezembro 12, 2006

Dois ícones.

Kubrick trouxe-nos ainda outros dois grandes ícones do cinema neste século XX. Spartacus, um herói que mobilizava a sua gente na luta pela liberdade, e Lolita, arquétipo de menina avassaladora e erótica, cujo poder destrói o pobre homem hipnotizado. Duas adaptações primorosas de duas grandes obras da literatura moderna. Aliás, valeria mesmo ler Spartacus, de Howard Fast, neste fim de ano... Lolita, de Nabokov, eu já tive o prazer de ler. Uma maravilha de livro. Sobretudo para um marmanjo sensato, uma vez que é impossível não se identificar com o bobo Humbert Humbert, um estúpido devotado à beleza da menina Lolita. Talvez porque saibamos que a tal Lolita vem às vezes de um jeito mudado, com outras idades, outras curvas. Vem até mais velha. Mas vem sempre, inexoravelmente, menina.

Manet em dezembro.

Vez ou outra sou tomado pela preguiça. Que parece subir pelos pés e vai rapidamente atingindo toda e qualquer parte de meu corpo. Vez ou outra sou tomado pelo tédio, que vai entrando pela boca, pela língua. E me traz sempre uma meia tontura... Vez ou outra sou tomado pelo mau-humor. Por um péssimo humor que eleva em mil o meu pessimismo. Entra pelos meus olhos, que chegam a arder, feito um sono dolorido.

Mas agora sou tomado por aquela sensação quase diária de inquietação e impaciência, como se eu percebesse que a cadeira me prende e me regula os movimentos... O ar bem rarefeito e seco, o cheiro de papel, o cheiro estagnado de repartição... E as idéias que pululam e nascem já castradas, vão direto para o cesto de lixo, aqui ao meu lado esquerdo.

Impaciência pode levar o sujeito ao caos. Sobretudo quando nos vem à mente alguma velha e boa memória de alguma praça, de alguma companhia que adorava praças. Ou quando me surge a imagem de um frescor ausente... este lugar é a antítese de qualquer frescor. É um emprego apenas. Em que o pobre escritor arruma a vida. Mas desarruma aquele sentido de viver entre árvores, feito gente mesmo. Não como um autômato sem oxigênio, sobrevivendo ao ar-condicionado pouco eficiente.


Manet, Édouard Manet. Suas imagens me vieram agora. Numa tentativa tosca de acalmar os sentidos... Não acalma. Nem Manet, nem Renoir, nem ninguém. Sou mesmo um sujeito paciente, que leva a vida sem grandes conflitos, trabalhando sem muito reclamar. Mas é esta ausência de vento, ausência de graça, ausência de odores agradáveis - que me torna, afinal, um efetivo inconformado.

Paciência, homem. Paciência!




E caso o leitor se encontre neste mesmo estado de "ranger de dentes", que veja algumas obras de Manet. Para pensar e, de alguma forma, imaginar que uma tarde, agradável como esta, poderia ser bem mais vivida. Ou vívida.

59


Ouçamos agora o sempre certeiro David Bowie e uma de suas belas interpretações. Sorrow está naquele espetacular lado B de Pin Ups, álbum fundamental na discografia de um artista também fundamental para a história da música moderna.



Sorrow

With your long blond hair and your eyes of blue
The only thing I ever got from you
Was Sorrow - Sorrow

You're acting funny, try to spend my money
Out there playing your high class games
Of Sorrow - Sorrow

You never do what you know you ought to
Something tells me you're the devil's daughter
Sorrow - Sorrow

I tried to find her cause I can't resist her
I never knew just how much I missed her
Sorrow - Sorrow

With your long blond hair and your eyes of blue
The only thing I ever got from you
Was Sorrow - Sorrow

With your long blond hair, I couldn't sleep last night
With your long blond hair.

(Bob Feldman, Jerry Goldstein, Richard Gottehrer)

segunda-feira, dezembro 11, 2006

A mais bela da história.


Segundo a minha opinião, humilde ou não, a mais bela mulher da história do cinema foi Kim Novak. Sobrancelhas e boca, olhar de moça simpática, agradável. Mas uma interessante fragilidade - ora, quem a viu em Um Corpo que Cai, atormentando um frágil ex-detetive, sabe bem do que digo. Quando eu a vi, naquele filme, há tantos e tantos anos atrás, eu me apaixonava e encontrava na tela um perfil de mulher que julgava ser o ideal. Sobretudo porque era leve, como fora Audrey Hepburn; porque era inteligente, como Katherine Hepburn; e porque era sensual, como Marilyn Monroe.

Além do citado filme, de Alfred Hitchcock, outras obras da moça que muito me agradaram: Strangers When We Meet e The Man with the Golden Arm. E há ainda Pic Nic. Abaixo, duas cenas rápidas de Um Corpo que Cai, em que Kim Novak parece mesmo uma entidade onírica, mas assustadoramente humana, sensualmente humana.


O iluminado.


Melhor filme do gênero terror psicótico, O iluminado é do começo ao fim uma verdadeira aula do mestre Kubrick. Abaixo, duas cenas antológicas. Um filme, afinal, pra se ver de madrugada, sem qualquer alma viva por perto. Sem pipoca. Sem pausas e comerciais. E, sobretudo, ó céus, legendado. Aliás, qualquer filme deveria ser visto com legendas. Mas em alguns casos não faz mesmo muita diferença... Alguns filmes não tem lá o que se perder. E concordem comigo: um filme que tem Jack Nicholson não pode ser dublado, nem pelo melhor dos dubladores. Não pode, de jeito algum.


60


Ocupando a 60ª posição entre as 100 canções que mais me comoveram nos últimos trinta anos, Ray Charles e a tijolada em cabeça de bêbado Crying Time, maravilhosa canção de Buck Owens. Música dos diabos. E caso haja algum inocente leitor que não tenha ainda conhecimento da obra de Ray Charles, faça o favor de navegar por tantos clássicos. Incluindo-se os duetos com Fitzgerald e Betty Carter. Talvez convenha começar com o filme, o que não deixa de ser bem interessante. E pelo sítio oficial, aqui.


Crying Time

Oh, it's cryin' time again, you're gonna leave me
I can see that far away look in your eyes
I can tell by the way you hold me darlin' Oooh
That it won't be long before it's cryin' time

Now they say that absence makes the heart grow fonder (fonder)
And that tears are only rain to make love grow
Well my love for you could never grow no stronger (stronger)
If I lived to be a hundred years old

Oh, it's cryin' time again, you're gonna leave me
I can see that far away look in your eyes
I can tell by the way you hold me darlin'. Yeah now
That it won't be long before it's cryin' time

Now you say you've found someone that you love better (better)
That's the way it's happened every time before
And as sure as the sun comes up tomorrow ('morrow)
Cryin' time will start when you walk out the door

Oh, it's cryin' time again, you're gonna leave me
I can see that far away look in your eyes
I can tell by the way you hold me darlin'. Alright now
That it won't be long before it's cryin' time
(That it won't be long before it's cryin' time)

(Buck Owens)

Ctrl+Z.

Um caro amigo e colega de redação deu-me hoje a mais informatizada definição das necessidades humanas: um control+Z seria suficiente para acabar com praticamente todos os nossos problemas. Se bem pensarmos, notaremos que quase toda merda nasce de um gesto ou palavra sem zelo. De um breve instante, a calmaria cede espaço ao caos. Bastaria ao desafortunado, apertar e reapertar o botão que nos faz voltar no tempo. E nada muito complicado. Em alguns casos, uns minutos bastariam.

*

Ter um relacionamento é algo bacana. Vez ou outra se quer fugir, mandar às favas e tudo o mais. Mas, em geral, é bacana. Melhor seria se a mulher viesse com um botão de pausa. Quando viesse com aquele punhado de palavras inquisidoras, pausa. Quando viesse com cobranças estapafúrdias e acusações sem o menor sentido, pausa. Quando resolvesse comentar animada as últimas peripécias de algum bebê da família ou aparecesse com elogios aos parentes, pausa. Quando criticasse o nosso silêncio, pausa. Quando gritasse, quando confundisse alho com bugalhos, quando pedisse um novo vestido, pausa. Pausa, pausa, pausa.

*

Talvez um botão de volume já me bastasse. Quando a gritaria estérica surgisse, abaixaria o volume. Ao zero. Como seria salutar! Como seria bom se houvesse alguma discussão em pleno e ameno silêncio. Porque nem me incomoda tanto a briga e as atrapalhações - não tenho mais ouvidos para escândalo de gente enganada. E para gritos que se acreditam ofensivos.

domingo, dezembro 10, 2006

2001, odisséia.


Kubrick era um sujeito que sabia bem da vida. Suas obras falam mais ao Homem que muita enciclopédia ou tese acadêmica. Enfim, sem chover no molhado, um grande artista do século XX. Esta semana, por aqui, cenas e trailers de seus geniais filmes. E "geniais", neste caso, não é força de expressão ou enfeite. São geniais tanto quanto foram os poemas de Baudelaire e os romances de Balzac. Ou quanto as telas de Van Gogh. Obra pra se ver e não gostar, numa primeira visita. Por se achar estranha e quieta. Mas quando vista com olhos maiores, mais atentos, a obra passa a revelar inúmeros planos e páginas. E uma busca pelo sentido desta coisa besta e bela que é a vida. Hoje, vejamos as cenas iniciais de 2001: uma Odisséia no Espaço. Puro lirismo. Pura explicação.



Crônica Dominical

Mundo cão. Mas não se trata daquele cão de olhar gentil e focinho gelado. Cão de mundo cão é mais aquele cão danado, o Coisa Ruim, o Monstrengo. O Satã. E nem é aquele Satã do evangelho, que, afinal, me parece mais um sintoma do que uma entidade. Digo daquele Lúcifer de idéias e caos. Pois é assim mesmo. Num instante a vida e as coisas todas estão entre os seus dedos. Tudo parece organizado e certo. Que é só dizer uma certa palavra ou seguir certo caminho e todo e qualquer defeito no rumo cotidiano será necessariamente resolvido. Mas não é assim. Ou não é assim sempre. O mundo cão raivoso surge quando aquele transtorno nos aparece e nos remete a tantos outros que um dia nos atrapalharam os sentidos. A cabeça parece uma caixa de marimbondos e o que era estranho sonho transforma-se em pesadelo.

Quando pequeno eu tinha um mesmo pesadelo repetidas vezes. Neste sonho ruim eu era cercado por uma mulher feita de luz e pano, etérea, sem pés e nenhum peso. Me enlaçava, me sufocava, me impedia de ir a qualquer canto. Tudo se passava no meio de uma rua, asfaltada e muito iluminada, em que transeuntes passavam, ignorando-me. Passavam por vezes sorrindo, por vezes gargalhando. Mas de um certo modo, eram mudos. Eu não os ouvia, não os sentia - por entre aquela neblina translúcida... Eu os via. E o pesadelo encontrava seu paroxismo justamente quando eu me punha, desesperado, a gritar. O medo era tanto, porém a voz não me saía pela boca, nem o choro que eu tentava controlar era ouvido. Eu continuava a ser enlaçado por aquela mulher de cabelos brancos, que eu sabia ser mulher tão somente pela leveza de suas formas. Talvez nem fosse de algum sexo. Talvez nem fosse nada.

Tal pesadelo de repente deixou de ser sonhado. Outros me apareceram. Ainda raros, sem qualquer conexão ou freqüência. Nenhum que mereça descrição. Mas acordado, bem acordado, pesadelos ainda me tomam. Eu me pego sendo enlaçado por uma fumaça ruim, a qual me perturba os sentidos, me desorienta. Me entristece e me rouba a respiração. Não estou mais numa rua sem começo e fim, estou em mim mesmo, em qualquer lugar. Sou enlaçado pelo mesmo fantasma, que agora tem mesmo a forma de mulher, queixumes de mulher, medo de mulher. E quase sem pés vai me enlaçando, como antes, me fazendo confuso e apavorado. Eu tento gritar e desta vez a voz sai grave de minha boca. Tudo aquilo que me vem à mente eu berro. Mas creio apenas que nunca digo o que realmente quero ou preciso. Sempre fica uma palavra que jamais chega a se formar completa.

E desta vez não há ninguém ao meu lado. Nenhum transeunte a passar... Ou agora mesmo me corrijo: há transeuntes ainda, muitos, que passam pela minha vida sorrindo e que nunca notam pela minha agonia. Creem-me apenas um outro transeunte.

Cada um sobrevivendo aos seus próprios pesadelos, ao mundo cão, que a gente já decodificava em sonhos, mesmo ainda pequeno. Mesmo tão ridiculamente criança.