Vai acabando o ano. E todos já começam a enfeitar a árvore ou outra coisa que possa receber luzes, como o portão e a janela. Alguns compram presentes e outros os recebem. Eu mesmo me darei alguma coisa. Um sapato, talvez. Pra melhor pisar na velharia do mundo. Ou um novo par de óculos para que eu possa ver com mais clareza, sem névoa, o desassossego. Ou até mesmo um velho livro sobre um tal de Pantagruel. Um presente que me dê algum alívio, algum descanso. Talvez algumas horas de sono no hotel mais silencioso da cidade.
sábado, dezembro 16, 2006
Ufa! Chega!
O que não vai bem é brigar com... Bah! Deixemos agoras as rusgas e finalizemos logo a semana, que já estou um maltrapilho. E o fim desta semana traz De Olhos Bem Fechados.
Segundo a opinião deste e de outros cinéfilos, De Olhos Bem Fechados é o mais tocante filme de Kubrick. Sei que a comparação é difícil, mas é até bem fácil entender que se trate do filme que mais fala a cada um dos sujeitos na platéia. Afinal, o que faz Kubrick é descrever (e de modo algum explicar) o que ocorre dentro destas cabeças atadas a outras cabeças, atreladas pelo amor, pelo sexo, pela desconfiança, pelo ódio e pela carência. Cada uma daquelas situações e cada um daqueles personagens de Eyes Wide Shut é mesmo a metáfora ou a formulação onírica deste pânico mental, o qual nos guia por um tênue fio de nylon, entre poços de desejo, obrigações, honra e ilusão.
Como disse abaixo, não é fácil, e ninguém nos disse que seria. Mas Kubrick diz ainda mais: além de difícil, é incompreensível.
P.S.: não encontrei um bom vídeo de Laranja Mecânica. Que me perdoem todos. Todos.
sexta-feira, dezembro 15, 2006
Vez ou outra, o medo.
Que já amou como eu agora amo, sabe do quão é difícil recuperar a vida, depois de uma separação que não desejávamos. Alguns amigos, leitores deste blog aliás, já experimentaram desta detruição. Amavam, mas foram moleques, cretinos ou sei lá mais o quê. Passaram depois anos como autômatos, verdadeiros andróides de mágoa e arrependimento. E por quê? Porque somos todos profundamente desastrados, egoístas e, sobretudo, cegos. E magoamos aquelas criaturas que amamos... porque somos desastrados, egoístas... cegos.
Quem já passou por isso entenderá muito bem o que digo. Mea culpa, mea culpa. Não obstante a inutilidade que é reconhecer cada um dos erros que a gente já cometeu pela vida, sem procurar por desculpas ou amenizadores. Tal qual a história dos caras que queimaram pessoas. Qualquer justificativa será, ainda e certamente, um desaforo. Será um motivo ainda maior para ampliar e determinar a culpa. Danem-se os motivos. Erramos, fizemos merda, cagamos. Ora, que absurdo não perceber! Porra, será que é preciso ser muito maduro pra reconhecer que somos danosamente imperfeitos? Bem o somos, sempre. Eu, que já fiz bobagens, das mais diversas, e já gritei e perdi o senso, já falei o que não se diria nem em briga de assassinos; eu, que já cometi absurdos, por falta de pensar direito, de entender direito o que é essa difícil vida; "eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante"; eu verifico que 30 anos ou 60 não bastam para fazer de um moleque, um homem, no sentido mais íntegro do termo.
Porra! É difícil demais andar certo pelos caminhos, sem ridiculamente tropeçar nos tapetes, engasgar em palavras e conceitos que nos pareciam corretos; sem se sentir ridículo, humanamente ridículo. Arre, que nunca há arrogante que não encontre o chão, depois de um tombo que se poderia evitar, mas cujos olhos estavam voltados para o alto.
Quem já errou nesta vida, e comeu depois um prato de sopa que o próprio capeta temperou, sabe bem o que é o medo. Quem ama e recebe este mesmo amor em troca, dia pós dia, deve bem saber. Ou a qualquer hora, diriam alguns, será muito tarde. E a vida voltará àquela escuridão solitária.
Não é mesmo fácil. Mas não me lembro de ninguém ter dito que seria.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Tapas e beijos.
Ouvimos Ike & Tina, com os clássicos Proud Mary e River Deep, Mountain High. Coisa realmente boa.
Idéia atrasada.
O Escritório.
Mas nem sempre é isso. Um escritório pós-tufão, pós-terremoto. Na maior parte das vezes recebo aqui os meus amigos. Falamos de tudo o que nos interessa, há tantos anos. Eles bebem de alguma bebida que eu mesmo não bebo, mas sempre as tenho, para os amigos tão somente. Fumamos nossos cigarros e ouvimos as boas músicas daqui.
Vez ou outra é a minha mulher que aqui me vem visitar, nesta minha caverna, protegida pelos olhos de um Elvis e por um grande quadro do Quarteto Fantástico. Mas ela vem pouco. Aqui é mesmo claustrofóbico... Digo, nem sempre é. Há vezes que aqui é o canto mais divertido da casa - uma verdadeira táboa de prazeres. Uma boa televisão, os canais da NET, uísque e cigarros. E um lugar para se cantar, no videokê instalado no PC. Aqui se canta Tu me Acostumbraste e Misery. Às vezes se canta Ziggy Stardust. Este escritório é um lugar de se ficar bobo.
Aqui eu escrevo minhas histórias, releeio meus poemas e, sobretudo, canto todas as canções que desejo. Aqui eu penso e desisto de pensar. E agora, engasgado de pensamento, vejo o escritório, extenção de minhas idéias, numa baguça dos diabos, sem que eu tenha a menor inteção de mudar alguma coisa. Ao menos hoje.
Sábado talvez.
Queimem-no! Queimem!
É um exemplo de como há gente não merecedora de liberdade. O tal sujeito, pelo que li em algum jornal, já teve suas condenações, por crimes anteriores, e cumpriu tão somente um pequena parte da pena. Voltou a andar pelas ruas, desorientado e estúpido. E este mundo está cheio de gente que, efetivamente, não merece a liberdade. Não sou jurista e muito menos me preocupo com os ajustes que poderiam ser feitos na lei penal desta porra de país. Mas, decididamente, um pouco de criatividade nos faria bem. Um pouco de sadismo, até.
E digo isso não porque seja pouco humanista, mas por ser o contrário: sou daqueles que enchergam a vida com olhos grandes, que sente um enorme prazer com essa coisa de viver e gostar de coisas. E imaginar que de repente um desafortunado possa fazer mal a alguém que amo, ou mesmo a mim, que sou daqueles que não gostam de matar nem mosquito - simplesmente porque o sujeito teve a autorização de algum juiz para cumprir a pena em liberdade.
É o caso do tal Chapinha, ícone dos assassinos idiotas, que, por ser apenas uma garoto, segundo a lei vigente, poderá a qualquer momento repetir a dose com outro casal... Tudo isso é a inveja que faz? É a miséria? É raiva? Não deveria nos importar o que é. Não deveria servir, ao menos, de desculpa ou amenizar a pena de qualquer um. Mesmo porque uma coisa é roubar, outra é queimar gente viva.
*
A solução seria o desterro? Seria a pena de morte com enforcamento? A violência nasce no peito do sujeito, na sua profunda mediocridade. Na sua incapacidade de perceber que a liberdade é o bem maior nesta merda de sociedade desconcertada.
Ou como me diria um velho amigo: é a guerra! A guerra é contra o obscurantismo, contra a miséria humana. Uma guerra que vem sendo travada há alguns milênios e não parece estar chegando ao fim. Se sabe apenas que enquanto houver quem explore, haverá quem se revolte.
Enquanto houver gente, haverá merda. E quem dela se alimente.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Aquiles em Tróia.
Grandes menores.
Outros dois trabalhos de Kubrick, os quais seriam supostamente obras menores se comparadas a um conjunto que tem 2001, Uma odisséia no espaço, Laranja Mecânica, Spartacus, O Iluminado e, sobretudo, De Olhos Bem Fechados, aquele que julgo ser o melhor filme dos anos 90 - imaginemos que maravilha seria se Kubrick tivesse vivido um pouco mais e o pudesse ter finalizado. E se pudesse ter dirigido AI - Inteligência Artificial, filme estupidamente estragado, que tem a curiosidade de ter os melhores 15 minutos iniciais da história da Ficção Científica, tendo todos os minutos restantes como os mais intragáveis. E que tivesse feito outras coisas mais, outras provocações.
Fellini e Hitchcock são outros que bem poderiam estar vivos. E Fritz Lang. E Glauber! Mesmo porque é evidente que o cinema passa por uma crise criativa. O efeito Matrix, resultado do efeito Pulp Fiction, vai perdendo a força. Não há conjunto, não há proposta estética inovadora, além daquelas que existem pela parafernalha tecnológica. Tudo anda desanimado. O cinema intelectual, experimental, está realmente chato. Ou forçosamente restrito. E são raros os filmaços, do quilate de Closer, do veterano Mike Nichols, e de Lost in Translation, de Sophia Coppola, dois exemplos de clássicos modernos, tal qual, em sua época, é clássico Casablanca.
Post Scriptum: vídeos de Dr. Strangelove e Full Metal Jacket.
Não sofra um derrame, pobre diabo.
De repente, não mais que de repente, todas as imagens deste blog, postadas nos últimos trinta dias, desapareceram! Que faço? Devo ser prudente e esperar, para que tudo se arrume mais tarde, sei lá como. Devo começar a gritar, dizendo mesmo toda sorte de palavrões cabeludos, imundos, ofensivos, grotescos? Devo calmamente, feito um paciente monge tibetano a plantar papoula, recomeçar, recolocar cada pequena imagem? Ou devo mesmo surtar...
Instantes depois...
Ufa! Estavam lá, as imagens. Voltaram também de repente, sem alarde. Bom. Seria insuportável tudo recolocar, quando há tanta coisa nova pra se fazer. E este episódio banal ao menos me trouxe uma certa reflexão: caso este blog entrasse em total desgraça, por problemas nos gigantes servidores do Blogger, eu teria paciência pra recomeçar? Teria ao menos paciência para reestruturar alguma coisa, recolocando vídeos, pesquisando pelas mesmas imagens, pelas capas...? Hum, bem creio que não, apesar do apreço que tenho pelo que já fiz por aqui. Em verdade, acho que alteraria toda a coisa, iniciaria um novo blog, com outro conceito, outra razão. Talvez um blog erótico e imundo. De muito baixo calão. Nele eu somente escreveria sobre essa infindável fodeção que há no mundo. Nada de Arte. Nada de nada. Só gente pelada e enlameada de suor.
E eventualmente imagens de lugares bacanas pra se visitar.
Mais Novak.
Visitem então Vintage Movie Magazines. E percebam como há capas que justificam qualquer conteúdo. Aliás, há revistas que só valem mesmo pelas capas. Sempre é assim.
58
Alguns amigos me acusam de nacionalista, como se tal qualidade fosse afinal de contas um desaforo ao bom senso. Mas o sou, sim, pairando entre uma certa admiração e uma forte hojeriza. Um nacionalista consciente da mediocridade de sua gente, da fragilidade de tudo o que nos cerca. Creio eu, até, que a minha relação com a pátria seja a mesma com a arte sacra. Sou ateu, mas sou capaz de ouvir longas missas de Mozart e admirar cânticos dos mais diversos. Mesmo as igrejas me agradam. As considero belas, sem no entanto ser tomado pela misericórdia ou pela culpa.
Desta mesma maneira, gosto das bandeiras, brasóes, hinos e tudo o que possa remeter a esta porcaria de país. Sendo cético e amplamente descrente. Sem contaminar, no entanto, a apreciação artística. Dentre as obras do gênero, nenhuma me toca mais que o Hino à Bandeira, de autoria de Antônio Francisco Braga e lírica de Olavo Bilac.
Creio até que sou um dos poucos sujeitos deste país que escuta tal hino, ocupante da 58ª colocação entre as cem que mais me comoveram nesta desencontrada vida, como se ouvisse um som do Radiohead ou do John Coltrane. Ouço e canto, assovio. Nem penso em como tudo é um colapso, uma grande bosta enfeitada de açúcar... Um açúcar que nem dá pra todo mundo, bem o sei.
Obs.: ouçamos uma versão bem inferior, cuja interpretação desconheço, àquela que costumo ouvir, da Banda Nacional. Por algum motivo bizarro, não consigo levar tal versão ao instável Goear. Se eu conseguir, faço a substituição. A versão abaixo carece de certa virilidade.
Hino à Bandeira
Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da pátria nos traz.
Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil.
Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.
Sobre a imensa nação brasileira,
Nos momento de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira,
Pavilhão da justiça e do amor.
(Antônio Francisco Braga e Olavo Bilac)
terça-feira, dezembro 12, 2006
Dois ícones.
Manet em dezembro.
Vez ou outra sou tomado pela preguiça. Que parece subir pelos pés e vai rapidamente atingindo toda e qualquer parte de meu corpo. Vez ou outra sou tomado pelo tédio, que vai entrando pela boca, pela língua. E me traz sempre uma meia tontura... Vez ou outra sou tomado pelo mau-humor. Por um péssimo humor que eleva em mil o meu pessimismo. Entra pelos meus olhos, que chegam a arder, feito um sono dolorido.
Mas agora sou tomado por aquela sensação quase diária de inquietação e impaciência, como se eu percebesse que a cadeira me prende e me regula os movimentos... O ar bem rarefeito e seco, o cheiro de papel, o cheiro estagnado de repartição... E as idéias que pululam e nascem já castradas, vão direto para o cesto de lixo, aqui ao meu lado esquerdo.
Impaciência pode levar o sujeito ao caos. Sobretudo quando nos vem à mente alguma velha e boa memória de alguma praça, de alguma companhia que adorava praças. Ou quando me surge a imagem de um frescor ausente... este lugar é a antítese de qualquer frescor. É um emprego apenas. Em que o pobre escritor arruma a vida. Mas desarruma aquele sentido de viver entre árvores, feito gente mesmo. Não como um autômato sem oxigênio, sobrevivendo ao ar-condicionado pouco eficiente.
Manet, Édouard Manet. Suas imagens me vieram agora. Numa tentativa tosca de acalmar os sentidos... Não acalma. Nem Manet, nem Renoir, nem ninguém. Sou mesmo um sujeito paciente, que leva a vida sem grandes conflitos, trabalhando sem muito reclamar. Mas é esta ausência de vento, ausência de graça, ausência de odores agradáveis - que me torna, afinal, um efetivo inconformado.
Paciência, homem. Paciência!
E caso o leitor se encontre neste mesmo estado de "ranger de dentes", que veja algumas obras de Manet. Para pensar e, de alguma forma, imaginar que uma tarde, agradável como esta, poderia ser bem mais vivida. Ou vívida.
59
Ouçamos agora o sempre certeiro David Bowie e uma de suas belas interpretações. Sorrow está naquele espetacular lado B de Pin Ups, álbum fundamental na discografia de um artista também fundamental para a história da música moderna.
Sorrow
With your long blond hair and your eyes of blue
The only thing I ever got from you
Was Sorrow - Sorrow
You're acting funny, try to spend my money
Out there playing your high class games
Of Sorrow - Sorrow
You never do what you know you ought to
Something tells me you're the devil's daughter
Sorrow - Sorrow
I tried to find her cause I can't resist her
I never knew just how much I missed her
Sorrow - Sorrow
With your long blond hair and your eyes of blue
The only thing I ever got from you
Was Sorrow - Sorrow
With your long blond hair, I couldn't sleep last night
With your long blond hair.
(Bob Feldman, Jerry Goldstein, Richard Gottehrer)
segunda-feira, dezembro 11, 2006
A mais bela da história.
O iluminado.
60
Crying Time
Oh, it's cryin' time again, you're gonna leave me
I can see that far away look in your eyes
I can tell by the way you hold me darlin' Oooh
That it won't be long before it's cryin' time
Now they say that absence makes the heart grow fonder (fonder)
And that tears are only rain to make love grow
Well my love for you could never grow no stronger (stronger)
If I lived to be a hundred years old
Oh, it's cryin' time again, you're gonna leave me
I can see that far away look in your eyes
I can tell by the way you hold me darlin'. Yeah now
That it won't be long before it's cryin' time
Now you say you've found someone that you love better (better)
That's the way it's happened every time before
And as sure as the sun comes up tomorrow ('morrow)
Cryin' time will start when you walk out the door
Oh, it's cryin' time again, you're gonna leave me
I can see that far away look in your eyes
I can tell by the way you hold me darlin'. Alright now
That it won't be long before it's cryin' time
(That it won't be long before it's cryin' time)
(Buck Owens)
Ctrl+Z.
*
Ter um relacionamento é algo bacana. Vez ou outra se quer fugir, mandar às favas e tudo o mais. Mas, em geral, é bacana. Melhor seria se a mulher viesse com um botão de pausa. Quando viesse com aquele punhado de palavras inquisidoras, pausa. Quando viesse com cobranças estapafúrdias e acusações sem o menor sentido, pausa. Quando resolvesse comentar animada as últimas peripécias de algum bebê da família ou aparecesse com elogios aos parentes, pausa. Quando criticasse o nosso silêncio, pausa. Quando gritasse, quando confundisse alho com bugalhos, quando pedisse um novo vestido, pausa. Pausa, pausa, pausa.
*
Talvez um botão de volume já me bastasse. Quando a gritaria estérica surgisse, abaixaria o volume. Ao zero. Como seria salutar! Como seria bom se houvesse alguma discussão em pleno e ameno silêncio. Porque nem me incomoda tanto a briga e as atrapalhações - não tenho mais ouvidos para escândalo de gente enganada. E para gritos que se acreditam ofensivos.
domingo, dezembro 10, 2006
2001, odisséia.
Crônica Dominical
Quando pequeno eu tinha um mesmo pesadelo repetidas vezes. Neste sonho ruim eu era cercado por uma mulher feita de luz e pano, etérea, sem pés e nenhum peso. Me enlaçava, me sufocava, me impedia de ir a qualquer canto. Tudo se passava no meio de uma rua, asfaltada e muito iluminada, em que transeuntes passavam, ignorando-me. Passavam por vezes sorrindo, por vezes gargalhando. Mas de um certo modo, eram mudos. Eu não os ouvia, não os sentia - por entre aquela neblina translúcida... Eu os via. E o pesadelo encontrava seu paroxismo justamente quando eu me punha, desesperado, a gritar. O medo era tanto, porém a voz não me saía pela boca, nem o choro que eu tentava controlar era ouvido. Eu continuava a ser enlaçado por aquela mulher de cabelos brancos, que eu sabia ser mulher tão somente pela leveza de suas formas. Talvez nem fosse de algum sexo. Talvez nem fosse nada.
Tal pesadelo de repente deixou de ser sonhado. Outros me apareceram. Ainda raros, sem qualquer conexão ou freqüência. Nenhum que mereça descrição. Mas acordado, bem acordado, pesadelos ainda me tomam. Eu me pego sendo enlaçado por uma fumaça ruim, a qual me perturba os sentidos, me desorienta. Me entristece e me rouba a respiração. Não estou mais numa rua sem começo e fim, estou em mim mesmo, em qualquer lugar. Sou enlaçado pelo mesmo fantasma, que agora tem mesmo a forma de mulher, queixumes de mulher, medo de mulher. E quase sem pés vai me enlaçando, como antes, me fazendo confuso e apavorado. Eu tento gritar e desta vez a voz sai grave de minha boca. Tudo aquilo que me vem à mente eu berro. Mas creio apenas que nunca digo o que realmente quero ou preciso. Sempre fica uma palavra que jamais chega a se formar completa.
E desta vez não há ninguém ao meu lado. Nenhum transeunte a passar... Ou agora mesmo me corrijo: há transeuntes ainda, muitos, que passam pela minha vida sorrindo e que nunca notam pela minha agonia. Creem-me apenas um outro transeunte.
Cada um sobrevivendo aos seus próprios pesadelos, ao mundo cão, que a gente já decodificava em sonhos, mesmo ainda pequeno. Mesmo tão ridiculamente criança.











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