segunda-feira, agosto 21, 2006

Um sorriso.

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

(Ferreira Gullar)

domingo, agosto 20, 2006

Museu, eu.

Desde que uma tão bela menina chamou-me de "museu", há muitos anos, pude perceber que sou mesmo daqueles com os olhos voltados para o passado. Descobri Radiohead depois de dez anos, The Police ainda me parece uma novidade e "antigo" pra mim é Monteverdi. Enquanto amigos ouvem as bandas da moda, eu ouço mesmo aquilo que está empoeirado nos museus... Esta semana, nosso tema musical será "façamos um upload!" e esqueçamos um pouco o que já é clássico. Ouçamos música nova. Muito nova. Pra começar um clipe bom demais, da banda sueca The Cardigans. A música é I Need Some Fine Wine.

Crônica Dominical

Vote no esdrúxulo.

Num domingo em que me vi obrigado a arrumar o meu tão aconchegante e bagunçado escritório, uma vez que já começava a perder até o mouse por entre o entulho, uma iluminação cívica me toma. Como o assunto preferido da maioria é a tal eleição de felizardos que faremos em outubro, apresentarei um velho esquema para a escolha de candidatos – sem que o leitor seja obrigado a fazer avaliações por demais complexas. Pensemos, afinal, que pouco importará escolher um ou outro, uma vez que a corrupção não está no indivíduo, mas nas oportunidades oferecidas por um sistema político dos mais ridículos do mundo. Assim, seguem cinco princípios básicos, infalíveis:

  • Como neste país, os deputados ganham uma supimpa aposentadoria depois de oito anos de trabalho – e pensar que ainda me faltam... 26 anos – vote em candidatos com mais de 80 anos. Assim, a aposentadoria terá algum sentido. Imagine que um sujeito de uns 40 anos já poderá ter um benefício que é no mínimo inexplicável.
  • Nossas câmaras, seja ela qual for, tem um número também inexplicável de vereadores, deputados e assessores espertos. Uma cidade com cerca de 600 mil habitantes tem uns 40 vereadores. O país tem mais de 500 deputados federais e não há o menor sentido nisso tudo. Ao menos, cabe gente de todo tipo e setor da sociedade. Vote então num daqueles candidatos representantes de algum setor jamais presente nas assembléias. Alguém que represente os catadores de latinha ou escultores em sabonete ou guardadores de carros.
  • Os salários são bons. Muito bons. Há benefícios diversos. Muitas delícias da praticidade. E a responsabilidades é pouca ou dependerá dos conchavos feitos com algum Mefistófeles. E como o trabalho não exige muito de qualquer um, vote naquele que lhe parecer menos inteligente, esperto e educado. Em verdade, vote naquele que lhe parecer mais imbecil.
  • Os anos passam e nos perguntamos: onde estão as leis realmente revolucionárias – aquelas que mudam mesmo o nosso cotidiano. Melhor escolher um candidato que tenha como idéia algo extravagante: como proibir o casamento entre pessoas da mesma classe social, para uma boa distribuição de renda, ou legalizar todas as drogas conhecidas pela humanidade, criando opiários e centros de acompanhamento com músicas de Bob Marley e Emerson, Lake & Palmer, com bons sepulcros para os exagerados.
  • Por fim, ninguém deveria ser político como profissional, tal qual se é advogado ou sapateiro. Há quem tenha sido senador por vinte anos – deputado por outros trinta. O quanto pôde acrescentar ao país esta figura? No dia em que a carreira vier a ser condenada, impedindo que um sujeito seja deputado mais do que uma única vez, talvez a coletividade consiga algum proveito. Acabemos com a reeleição de seja lá quem for. Votemos em quem nunca foi candidato – nem mesmo para o grêmio estudantil.

Como pôde notar, amigo leitor, não é muito difícil obter êxito, neste jogo esfuziante que é brincar de escolher entre os iguais. Pensemos em quais candidatos atendam ao itens acima e não anulemos o nosso tão útil voto.