segunda-feira, agosto 28, 2006

A mulher.

1
Eu me encontrava esperando. Naquela fase em que ficamos atentos, como se bem soubêssemos que algo espetacular vai nos acontecer a qualquer minuto. Um evento qualquer e inesperado que altera o caminho que a gente trilha. Assim eu me encontrava. E quando a vi, naquela noite em que tive duas doses de uísque como padroeiro, tive a visão que sempre esperei - aquela coisa pequena que é a devoção, a aparecer no pequeno peito, judiado já de tanto desacerto. Era aquela visão que nos conforta e nos faz eletrizar, perder a respiração de angústia e desejo. Aquela lua que nunca esteve no céu a brilhar, mas de repente se fez, nos fazendo esquecer do céu que antes era, sem lua, sem maravilha.
2
Era então o mundo que se encontrava transformado. Meio bobo, menos sisudo. Mundo que fica melhor - e nem digo melhor como querendo elogiar-lhe a simplicidade. Mundo mais rico de temores, mais farto em paz. O mundo numa forma e rosto que era a senha que me diria, enfim, que era tempo de saber do amor in media res. Um amor que não se vê crescer, tarde após tarde. Mas já nascido, mamado e crescido aparece, já sabendo desesperar, embriagar a cuca. Amor que se tem quando se vê aquilo que era idéia, quimera.
3
Quando eu a vi, tive a confirmaçao daquela coisa dos filmes bobos - aquela coisa de um personagem que vê a moça entre a multidão e antes que pisque os olhos já está bem arriado de amor, abobalhado, feroz. Amor que nem de conquista é, dispensa a lenta e medrosa gradação. Já nasce apurado.
4
Fernanda Ferreira, minha mulher, faz hoje aniversário. Há alguns anos estamos juntos a tocar a vida, a seguir com o rumo das coisas. Juntos, notando os detalhes, cada pequenina imagem que nos afigura; a alimentar a boca um do outro com açúcar, ininterruptamente..
5
Desde o primeiro segundo, ela dá à minha vida a beleza que tanto perturba quanto acalenta. A beleza que eu havia desejado ver tão de perto e que de repente me abraçou, colocou-me no colo, e suavemente tem me feito esquecer que o mundo é aridez e desencontro. Beleza que tem me dado água fresca, a cada sede.

Gosto.

Como o momento é de comemorações, por aqui, esta semana ouviremos tão somente aquilo que ela, a aniversariante, gosta e ouve. Uma seleção de mimos. Pra começar, U2 e a boa The Sweetest Thing.

domingo, agosto 27, 2006

Crônica Dominical

Reflexão acerca da frase dita por Lorne, personagem de meu último texto, cujo primeiro ato está disponível neste blog. Quando me pedem uma definição de "A vida é pura bosta enfeitada de açúcar", eu digo sempre:
  • nem sempre a vida é pura bosta efeitada de açúcar, muitas vezes é açúcar coberta de bosta. Pra chegar no doce, o paladar enfrenta muito asco;
  • o problema do açúcar é causar cáries, engordar e viciar. Faz mal tanto quanto qualquer conhecida droga. Viver de açúcar é feito viver de má cachaça, embriagado a qualquer hora. Além de estúpido, fica-se estragado cedo;
  • a bosta é também adubo. Fertiliza também os jardins. Ajuda a florescer as coisas todas que fornecem algum fruto;
  • no momento em que escrevia a passagem do texto, cheguei a pensar em mel, que além de delicioso e alimento poderoso, é um belo símbolo. Mas mel não vicia, creio eu. Nem é uma invenção que a gente teve. É a natureza - nossa também. Mel nunca foi narcótico.
  • a bosta é feito o lado obscuro que há em tudo. Aquilo que nos dá náusea, nos faz ter vergonha, nos faz querer morrer, às vezes; nos faz chorar, muitas vezes.
  • vive melhor aquele que sabe bem da merda do mundo. E não se importa, não sai amaldiçoando a vida, pisa, sem frescura, em tudo o que lhe degrada. Que vai jogando sementes de qualquer coisa em tudo.
  • vive melhor aquele que sabe bem morder do açúcar, sabe precisar dele - e o inventa a todo instante. Ninguém vive bem sem o vinho dos amores, da arte e da fé nos ideais mais belos.
  • na minha merda, semeio uma meia dúzia de plantas cujas flores são até simpáticas. Vou plantando. Tem vez que sai um broto amorfo e ridículo. Tem vez que sai uma flor que me enfeita a lapela. Tem vez que nada vive. O belo é semear - colher é obrigação;
  • meu açucareiro é grande. Pote de muitas ilusões. Muitas. Me entorpeço quando é bem chegada a hora de lavar as mãos, esquecer do odor, das feiúras que a vida tem. Me entorpeço de açúcar: seja num beijo da mulher que amo, seja nos versos de Goethe, seja na hora de me imaginar um escritor que o mundo abraça. Seja num copo de vidro, bem enfeitado de absinto.

Amigo leitor, sem ópio e consciência não se vive bem. Esse longo caminho não é fácil...