Uma sensação das mais inusitadas. Descendo da estação, ouvindo em meu mp3 o energizador disco Scary Monsters, de David Bowie, em volume impiedosamente alto, que não me permitia ouvir a algazarrada rua. Eram tanto os transeuntes, tantas as cores, as quinquilharias vendidas, as inutilidades que os mascates insistem em vender. Era um desesperado passar de gente apressada, sem ordem alguma no andar. Era um cheiro que não chegava a repugnar, mistura de tantas outras pipocas, ou milho ou carne e sei lá mais o quê. Um cheiro que dizia mesmo daquele turbilhão sem beleza. Não havia, aliás, beleza alguma. Cores apenas, belas por si só. Vermelho, amarelo, azul, amarelo, vermelho, em cada pequeno objeto. Os ambulantes a gritar. Não havia aquela beleza que insisto procurar.
David Bowie gritava e comovia, naquele instante. Nem sei ao certo se ouvia Scream Like a Baby ou Kingdom Come. A canção, seja ela qual for, era a perfeita trilha para a cena que de repente surgia. Uma sensação de que o mundo literalmente acabaria. Coisa de apocalipse pressentida, meio epifania de Jeremias, o profeta desacreditado, condenado por sua gente que o considerou agourento. Era mesmo o chão que de repente se tornava macio feito um colchão ortopédico.
Eu passava, tentando pisar no ritmo que a canção tem, quatro por quatro, três por quatro, dois por dois, e era o mundo naquele instante um real moribundo. No segundo seguinte acabariam a vida, o movimento e os mascates e suas tranqueiras coloridas. Era bem certo, eu previa. E em verdade, um vício de cinema, que sempre antes, segundos antes, de qualquer tragédia, transforma tudo num slow motion patético.
Logo no quarteirão seguinte, Elza Soares começa a balançar samba, cantando "crioula, crioula, criola para o mulato, criola". Assim, num instante, o mundo deixou de acabar, amigo leitor.
E nesta outra rua havia apenas uma palidez de pôr-do-sol. Sem aquela profusão de cores caóticas de um velho caleidoscópio.