segunda-feira, outubro 23, 2006

88

Lembro ao desavisado leitor que entenda: hoje é mesmo quarta-feira, apesar da indicação deste blog. Afinal hoje é 23 de outubro, para os registros. E a culpa de toda esta deselegante situação é de um errado ajuste efetuado pela administradora deste blog, faminta por mais milhões e milhões de clientes. Na 88ª posição do ranking das canções que mais me comoveram, Nelson Gonçalves, um gigantes das interpretações musicais, com Pensando em Ti. Seguindo a nova tradição, segue abaixo a bela lírica:


Pensando em ti

Eu amanheço pensando em ti
Eu anoiteço pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite pensando em ti
Eu vejo a vida pela luz dos olhos teus
Me deixa ao menos, por favor, pensar em Deus

Nos cigarros que eu fumo
Te vejo nas espirais
Nos livros que eu tento ler
Em cada frase tu estás
Nas orações que eu faço
Eu encontro os olhos teus
Me deixa ao menos, por favor, pensar em Deus

(Herivelto Martins e David Nasser)

Notícia de lá, de longe.

Cada vez mais me espanto com a gente de boa vontade que há no mundo. Vejamos uma pequena nota publicada, hoje, dia 18 de outubro, no caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo.

"A cantora Madonna, seu marido, Guy Ritchie, e o bebê adotado pelo casal em Malauí, chegaram ontem a Londres. (...) Grupos de direitos humanos e de proteção à criança prometem contestar a decisão do país africano por ceder a custódia do bebê ao casal com tanta rapidez".

Só pode ser mesmo piada. A Madonna, divindade popular, e seu marido, estranho ator, estão literalmente montados em fortuna que chega a nos causar calafrios, vivendo em mansões das mais limpas e arejadas, com suficiente condição de dar os melhores rumos para a vida de uma criança, seja ela qual for, com escolas sérias e sei lá mais o quê. E não bastasse tanto, a criança terá alguma chance no show business, com a marca Madonna estampada em tudo o que é lugar.

E nem é preciso lembrar ao sabido leitor o que é a África e suas mazelas sem-fim. E alguns grupos de direitos humanos e de proteção à criança ainda desejam reclamar! Ou eu estou mesmo torto de tanto uísque barato ou há gente de boa vontade que já perdeu o senso há muito tempo.

Como diria um velho amigo, torcendo os lábios, "logo a Madonna! logo a Madonna!".

E o mundo não se acabou.

Uma sensação das mais inusitadas. Descendo da estação, ouvindo em meu mp3 o energizador disco Scary Monsters, de David Bowie, em volume impiedosamente alto, que não me permitia ouvir a algazarrada rua. Eram tanto os transeuntes, tantas as cores, as quinquilharias vendidas, as inutilidades que os mascates insistem em vender. Era um desesperado passar de gente apressada, sem ordem alguma no andar. Era um cheiro que não chegava a repugnar, mistura de tantas outras pipocas, ou milho ou carne e sei lá mais o quê. Um cheiro que dizia mesmo daquele turbilhão sem beleza. Não havia, aliás, beleza alguma. Cores apenas, belas por si só. Vermelho, amarelo, azul, amarelo, vermelho, em cada pequeno objeto. Os ambulantes a gritar. Não havia aquela beleza que insisto procurar.

David Bowie gritava e comovia, naquele instante. Nem sei ao certo se ouvia Scream Like a Baby ou Kingdom Come. A canção, seja ela qual for, era a perfeita trilha para a cena que de repente surgia. Uma sensação de que o mundo literalmente acabaria. Coisa de apocalipse pressentida, meio epifania de Jeremias, o profeta desacreditado, condenado por sua gente que o considerou agourento. Era mesmo o chão que de repente se tornava macio feito um colchão ortopédico.

Eu passava, tentando pisar no ritmo que a canção tem, quatro por quatro, três por quatro, dois por dois, e era o mundo naquele instante um real moribundo. No segundo seguinte acabariam a vida, o movimento e os mascates e suas tranqueiras coloridas. Era bem certo, eu previa. E em verdade, um vício de cinema, que sempre antes, segundos antes, de qualquer tragédia, transforma tudo num slow motion patético.

Logo no quarteirão seguinte, Elza Soares começa a balançar samba, cantando "crioula, crioula, criola para o mulato, criola". Assim, num instante, o mundo deixou de acabar, amigo leitor.

E nesta outra rua havia apenas uma palidez de pôr-do-sol. Sem aquela profusão de cores caóticas de um velho caleidoscópio.