Não. Nem tudo é perfeito. Nem mesmo o mais belo dia pode ser perfeito. Nem mesmo a paz. Nada é exatamente como se sonhou, como se desejou naquelas horas de imaginar... E quando tudo nos parece um sorvete de cocaína e morangos, eis que surge o malfadado segundo... Me diria Chico Buarque, se fizesse parte daquele meu seleto grupo de desafortunados amigos: é a Roda-Viva, que carrega tudo pra lá... Me diria também aquele sujeito poeta de terras distantes: resigne-se, antes que seja realmente tarde para alguma resignação...
Na ocasião de uma certa tragédia pessoal, há muitos anos, eu, sem muito entendimento de muita coisa dessa vida, cometi a bobagem de me enraivecer, xingar aos quatro ventos, cercar-me de alguma braveza sem fim. Gritei, berrei, andei por quilômetros e quilômetros, pé após pé, cambaleante. Até me peguei batendo os braços numa certa parede, espancando-a, enquanto minhas mãos começavam a sangrar... E eu lhe pergunto, curioso internauta, pra quê?!
Não creio que tenha alguma utilidade qualquer tipo de auto fragelo. Mesmo que naquele momento eu soubesse que se tratava de uma fúria que não cabia em mim, não deixava de notar o quanto é inútil reclamar... Ora, a vida não é perfeita. Nunca é. Nunca.
Se o pudim no garfo vai, em direção à sua boca... e de repente cai. Acalme-se. Se as pratas voam para o seu bolso... e de repente somem, acalme-se. Se a noite era pra fazer inveja a Casanova... e de repente nada, acalme-se. Gritar ajuda? Chorar, beber, tremer... Pra quê? Até nos dá vontade... mas pra quê? Se não era para eu beber daquele leite, não vou chorar por ter-se derramado todo... Deixa pra lá. Logo eu esqueço. Como tantas e tantas tristezas que eu guardo num baú pesado e grande. De uns dez quilômetros. Do tamanho de minha cidade.