Estou cansado. Por demais cansado. Cansado de pensar atabalhoadamente, feito um bêbado crônico. E nestas horas me pego desejando a fuga, a vida bucólica de algum eremita. Penso em como seria bom ser milionário. Não para que me enchesse de grandes presentes. Mas para que eu tivesse a tranqüilidade quase funestra de jamais me ver cercado de confusão. Mas é tolice nossa acreditar que tanta grana poderia nos trazer alguma paz. Ou traria? Um eremita milionário seria possível? Não sei ao certo. Estou cansado. A cada segundo um novo tipo de questão me aparece. E todas, invariavelmente, são por mim geradas, numa busca veloz por algo que me distraia a mente sempre atônita.
Eu, que tenho vivido no limite do esgotamento mental chego a me preocupar com a minha velhice, quando o corpo cansado talvez não suporte um cérebro desde sempre hiperativo. Como será não pensar em nada? Como será descansar a cabeça num travesseiro qualquer, sem que eu me veja tomado por qualquer idéia ou devaneio. Como será ter a mente quieta?
Vivo em São Paulo. Cidade cada vez mais desagradável. Vivo no Brasil, um país de cultura cada vez mais pobre. Leio os jornais diariamente. Diariamente tenho centenas de sítios pra visitar - e downloads para baixar, os quais parecem resolver os problemas do mundo. Todos os dias, filmes e jogos imperdíveis nos canais por assinatura. Todos os dias, alguma opinião que eu preciso formular, alguma crítica, alguma observação que, calada, permanecerá ocupando espaço no pouco espaço que há em minha HD mental.
Tudo o que me bastaria, hoje, e há algum tempo, seria pegar minha mulher, meus dois cães, algumas músicas no companheiro iPod e muitas obras de Shakespeare, e fugir para algum casebre, à beira de alguma praia sem pernilongos. No entanto, novamente me aborreço ao perceber que somente um milionário, cuja vida não se esvai numa tediosa repartição de um órgão do governo, poderia, neste exato momento, se bem o desejasse, fugir.