segunda-feira, janeiro 15, 2007

Gray e a inveja ocasional.


Para um dia de muita preguiça e certa saudade da infância, quando passávamos a tarde a brincar de rabiscar cadernos e comer bolinho de chuva, observemos atentamente a apaixonante obra de Gray Scott, fotógrafo inglês de olhar límpido e irritantemente belo. É o típico trabalho que nos faz sentir uma profunda tristeza por termos escolhidos nossas profissões... Ó grande mundo! Por que cargas d'água acabei me transformando num neurótico funcionário público?


Mas também se meter a reclamar do que se tem é uma grande patifaria. Mesmo porque não é qualquer sujeito que tem um uma câmera tão exata e tão suave, transformando qualquer bela modelo num anjo dos mais pertubadores. Como nos diria o velho dramaturgo, "cada macaco suba ao galho que lhe parecer melhor". E que cada louco prossiga com a sua particular mania.

Não tenho um Drummond que me aconselhe.

Difícil ser funcionário

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

(João Cabral de Melo Neto)

domingo, janeiro 14, 2007

Crônica Dominical

Estou cansado. Por demais cansado. Cansado de pensar atabalhoadamente, feito um bêbado crônico. E nestas horas me pego desejando a fuga, a vida bucólica de algum eremita. Penso em como seria bom ser milionário. Não para que me enchesse de grandes presentes. Mas para que eu tivesse a tranqüilidade quase funestra de jamais me ver cercado de confusão. Mas é tolice nossa acreditar que tanta grana poderia nos trazer alguma paz. Ou traria? Um eremita milionário seria possível? Não sei ao certo. Estou cansado. A cada segundo um novo tipo de questão me aparece. E todas, invariavelmente, são por mim geradas, numa busca veloz por algo que me distraia a mente sempre atônita.

Eu, que tenho vivido no limite do esgotamento mental chego a me preocupar com a minha velhice, quando o corpo cansado talvez não suporte um cérebro desde sempre hiperativo. Como será não pensar em nada? Como será descansar a cabeça num travesseiro qualquer, sem que eu me veja tomado por qualquer idéia ou devaneio. Como será ter a mente quieta?

Vivo em São Paulo. Cidade cada vez mais desagradável. Vivo no Brasil, um país de cultura cada vez mais pobre. Leio os jornais diariamente. Diariamente tenho centenas de sítios pra visitar - e downloads para baixar, os quais parecem resolver os problemas do mundo. Todos os dias, filmes e jogos imperdíveis nos canais por assinatura. Todos os dias, alguma opinião que eu preciso formular, alguma crítica, alguma observação que, calada, permanecerá ocupando espaço no pouco espaço que há em minha HD mental.

Tudo o que me bastaria, hoje, e há algum tempo, seria pegar minha mulher, meus dois cães, algumas músicas no companheiro iPod e muitas obras de Shakespeare, e fugir para algum casebre, à beira de alguma praia sem pernilongos. No entanto, novamente me aborreço ao perceber que somente um milionário, cuja vida não se esvai numa tediosa repartição de um órgão do governo, poderia, neste exato momento, se bem o desejasse, fugir.