segunda-feira, janeiro 22, 2007

39

Ocupando a 39ª colocação entre as cem canções que bem me comoveram nesta vida de tanta comoção, uma nova aparição do Queen, banda visceralmente alocada nas minhas costelas. Em todas as épocas, desde a infância calma na pequena Osasco, passando por adolescência e chegando aos tempos atuais, em que os cabelos brancos começam a me irritar, o Queen sempre esteve presente, ocupando sazonalmente os meus ouvidos. Aliás, vale uma rápida explicação: como as estações do ano, há um leve predominância de uma determinada banda, a cada estação. Há uma fase de se reouvir Beatles, outra de se ouvir Elvis, outra de se ouvir Bowie e outra, naturalmente, de se ouvir Queen. E há também uma fase de se ouvir Roberto, como se eu jamais tivesse ouvido Detalhes antes. Estranhamente sou sempre atraído pelas citadas entidades... E creio que o leitor bem me compreende, uma vez que não deixo de ouvir as tantas outras coisas. Mas tais nomes talvez formem a estrutura básica e constante de minha apreciação musical. Ano passado, e lembro-me bem de ter escrito algo neste blog, tive a minha fase "Beatles again". Sinto que é chegada a hora de reconhecer Elvis Presley e ainda se admirar com o talento do sujeito.

Spread your wings, canção do álbum News of the World, foi-me apresentada lá pelas dobras dos anos 80, por um programa pré-MTV cujo nome era "Clip Trip", apresentado pelo bom sujeito Beto Rivera. e desde então a canção é daquelas que ficam no meu pequeno HD cerebral, aparecendo-me constantemente nos assovios ou no cantar alegre sob o chuveiro de água quente.



Spread your wings

Sammy was low
Just watching the show
Over and over again
Knew it was time
Hed made up his mind
To leave his dead life behind
His boss said to him
boy youd better begin
To get those crazy notions right out of your head
Sammy who do you think that you are?
You shouldve been sweeping up the emerald bar

Spread your wings and fly away
Fly away, far away
Spread your little wings and fly away
Fly away, far away
Pull yourself together
cos you know you should do better
Thats because youre a free man

He spends his evenings alone in his hotel room
Keeping his thoughts to himself, hed be leaving soon
Wishing he was miles and miles away
Nothing in this world, nothing would make him stay

Since he was small
Had no luck at all
Nothing came easy to him
Now it was time
Hed made up his mind
this could be my last chance
His boss said to him, now listen boy!
Youre always dreaming
Youve got no real ambition, you wont get very far
Sammy boy, dont you know who you are?
Why cant you be happy at the emerald bar?

So honey

Spread your wings and fly away
Fly away, far away
Spread your little wings and fly away
Fly away, far away
Pull yourself together
cos you know you should do better
Thats because youre a free man

(Freddie Mercury & John Deacon)

domingo, janeiro 21, 2007

Escolhas alheias.

As escolhas alheias desta semana são indicações de Juliana Arruda, jovem estagiária da minha tal repartição/redação. Juliana, não obstante a sua tenra idade, segue por um caminho nada recomendável. Esta coisa de inteligência e cultura em demasia deixam a moça ainda mais consciente e crítica. Lembro-me de um amigo que me dizia sempre "mulher inteligente tem mais dificuldade para achar namorado. Sobretudo porque é capaz de perceber que 98% dos homens são verdadeiros estúpidos. Os demais, no entanto, são estúpidos esporadicamente". Mas, sabendo eu bem destas coisas, afirmo que é impossível fugir, uma vez contaminado o cérebro.

Se souber o nome de ao menos cinco cineastas europeus, souber o nome de cinco cantoras dos anos 70, o nome de cinco poetas brasileiros... sei lá, se souber, afinal, o que é poesia, ora, não é tempo de lutar. A verdade é que a criatura já estará no grupo das meninas que ouvem Bowie e cantarolam Mozart. Um grupo de gente bem desconcertada. Lembro, até, de uma observação de uma velha amiga inteligente "na próxima encarnação quero vir loura, burra, levemente retardada - e que jamais tenha a precisa consciência do que são livros!". Sabemos todos. Era um chiste, uma brincadeira... (Ou não era?). Mas, não obstante as análises sociológicas e antropológicas do tema, há pessoas que são a prova prática da evolução da espécie humana, sobretudo pela consciência de que os humanidade se fez de "macacos sem pêlo que aprenderam a se divertir e matar". Uma grande responsabilidade esta de saber um segredo tão elementar.


Comecemos a seleção com o clássico Sunday Morning, dos evoluídos macacos cantores do Velvet Underground. Banda que eu, afinal revelo, achar tão saborosa quanto um prato de sopa de brócolis. Ou quanto salada de cenoura. Coisas que mesmo sem um gosto lá muito preciso, ainda é bom que a gente coma, vez ou outra.

Crônica Dominical

Há alguns anos, quando um dos amigos comprava um novo disco, não nos demorávamos a copiá-lo em fitas cassete BASF. Se o tal disco era merecedor, a gravação era feita em fitas cromo. E gravávamos tudo com todo o zelo possível. Quando era minha vez de comprar, chegava às vezes a preparar com antecedência algumas gravações, para que os amigos reproduzissem a fita já gravada, deixando o disco de vinil, frágil, guardado entre os outros discos, em local devidamente seguro. Tão seguro que ainda hoje, quinze anos depois da derrocada dos LPs e do estabelecimento dos CDs, todos estão aqui, algumas centenas, em meu escritório. Vez ou outra eu os vejo, inspeciono seus encartes. Ouvir, nunca. Que já não tenho ouvidos que suportem a péssima qualidade das pretas bolachas.

Atualmente, raramente alguém que conheço compra em loja algum CD ou DVD. Ou compra, como eu bem compro, pelo encarte, pela caixa - mas pelo conteúdo, naturalmente, não. Se pela mãe internet tudo nos pode chegar, em downloads famintos e velozes, pra quê nos preocuparmos? Justamente cabe aqui a nova discussão: trata-se de pirataria, criminosa, deslavada? Ou é afinal de contas a democratização antes jamais sonhada?

Será que afinal sou culpado e deveria disto me envergonhar, uma vez que nasci honesto, de participar de uma troca sem fim de dados e coisas que não me custam qualquer centavo? Esta semana, meu BitComet está a baixar todas (e repito, todas!) as HQs originais do Hulk; o jogo Brasil x Peru, da copa de 1970; Rebecca, de Alfred Hitchcock. Ora, quanto eu precisaria gastar do tão pouco que me sobra para o investimento intelectual para obter todas estas maravilhas?

Felizmente, a tal revolução da informação, e cujas conseqüências somente saberemos em muitos anos, trouxe um modo de infinita apreensão. Não é mais o caso de se deter por dias a ouvir o mesmo disco. Temos agora a discografia toda ou, como antes sonháramos, toda a loja de discos pra ouvir. Se nos der na telha ouvir Yo Yo Ma, cliquemos. Se a vontade for por Miles Davis, pronto. Se é o caso de ver e ouvir Julie London, pronto. Temos o que bem desejarmos. Somos donos da grande loja e nela nos perdemos.

Para quem é de uma geração em que bancas de jornais eram o portal para o universo, e que levou a vida a percorrer bibliotecas, sebos, livrarias, tal condição é um deleite, um fresco exercício de dúvida e cotentamento. Para quem sabe buscar - e sabe bem avaliar o que o alimenta, não existe melhor modo de crescer e conhecer ainda mais. Apenas não sei se é o caso da maioria. Os quais, sempre acostumados a consumir tão somente o que lhes é empurrado pela garganta, não saberiam o que colher, neste gigantesco pomar de arte e cultura.

Neste mundo de máscaras, o exagero de informações e caminhos nem chega a causar ainda mais estrago. Não creio que a facilidade possa nos servir de desculpa para o superficialismo. E, afinal de contas, crime ou não, creio que é bem a hora de darmos o troco. Os artistas são os menos prejudicados, neste mundo em que finalmente a comercialização da arte sofre algum reparo.