quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Um poeta que me compreende.

Ricardo Reis sempre me diz exatamente o que preciso. Sua obra é o meu "minuto de sabedoria". Justamente porque sua sabedoria não se mostra sábia ou educativa. Mas vem desconstruir a solidez de tudo o que há, muda o eixo do contentamento. Nos mostra o que há de mais adorável na vida: a consciência de que a materia, o prazer e a tranqüilidade devem ser cultivados feito flores, com algum adubo e alguma paciência. Hoje, atento ao atropelo que mesmo produzo nas congestionadas ruas de minha cabeça, o poema abaixo me disse bem, com toda a capacidade que o poeta tem de ludibriar os olhos alheios.

Não quero

Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.

Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa conosco,
Que passamos com ela.

Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.

(Ricardo Reis)

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A diretoria.


A preguiça me toma completamente. Completamente, digo eu. O calor deste verão maltrata-me a cabeça já naturalmente lerda. E como conseqüência desta leve tortura, acabo incapaz de escrever seja lá o que for. Vivesse eu na Islândia, escreveria um Anna Karenina por mês. Mas a semana deste blog precisa enfim começar. E comecemos, portanto, com um novo tema para as postagens. Trata-se de "A diretoria". Semanalmente, todos os trailers possíveis de um único e importante diretor de cinema.

Pois é. Há gente que vê cinema com alguma devoção, sabe o nome de atores e atrizes dos mais diversos tamanhos, mas é incapaz de relatar a obra de algum diretor. Não obstante a importância de roteiristas e editores, o diretor é mesmo quem dá o pulsar e o rosto de uma obra. Comecemos com o reconhecimento de grande parte da obra de um cineasta irregular, mas certamente responsável por ao menos dois maravilhosos filmes, Alien e Blade Runner, referência básica para quase tudo o que é feito ainda hoje. Ridley Scott fez certamente algumas bobagens, mas ainda merece - até que por fim nos confirme o contrário - a alcunha de "grande diretor".

Mas sigamos desde o início de sua filmografia. Seu primeiro filme, Boy and Bycicle, de 1965, não possui trailer em nenhum canto. (Quem o encontrar que me indique, por favor). Após oito anos trabalhando para televisão, fez em 1977 seu segundo filme, Os duelistas. Uma boa adaptação de romance de Joseph Conrad, com ótimo elenco. E dois anos mais tarde, seu primeiro clássico, Alien. Um filme que transita entre gêneros diversos, de ritmo magistral.

Ambos os filmes, sem que eu faça análises desnecessárias (para um verão que me torra o cerebelo), são cheios de personalidade e belos . Uma beleza que não está na cara do alienígena babento, nas guerras napoleônicas ou no corpo claro de Sigourney Weaver - porém está no movimento suave da câmera, nos sons e imagens que compõem dois mundo tão diferentes. E a diferença de mundos é um aspecto fundamental para a obra de Ridley Scott.


domingo, fevereiro 04, 2007

Crônica Dominical

O humanidade em breve terá o seu devido (e merecido) fim? Segundo o mais recente relatório do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), órgão criado pela ONU, integrado por centenas de especialistas ambientais de toda a esfera, cujo fim é nos alertar para a decadência irreversível deste planeta, o fim já começou. Mas a verdade é que o ser humano é uma praga e conseguirá sobreviver a todo custo - a população provavelmente diminuirá abruptamente e permanecerá ainda por milhares de anos a contribuir com a destruição de todas as coisas, até que nos restem somente as pedras.

Será complicado viver num planeta-sauna, sem água e desviando a todo instante de terremotos e tempestades. E será um verdadeiro campeonato brutal por um copo de água. Cerveja e vinho, então, somente para quem possuir grana em demasia. Muito daquilo que hoje desfrutamos já com certa regalia, nos custando alguns trocados, será ainda mais caro e raro, pra se ter apenas umas poucas veses pela vida, tal qual um simples gole de café ou um cacho de uvas.

A vida será mesmo bem desagradável, sobretudo para os velhos lascados - o que bem provavelmente será o meu caso. Se hoje, qualquer 25 graus já me escalpelam, aos sessenta anos eu serei literalmente cozido pelo calor que há de se expandir por meses e meses, em estiagens intermináveis. Haverá um dia em que Vidas Secas e Morte e Vida Severina serão considerados guias de sobrevivência.

Pobre de quem for pobre. E pobre de quem acreditar que todas estas recomendações são alarmismos de gente ociosa. Somente acho que jamais podemos subestimar a capacidade do ser humano de foder ainda mais com as coisas e continuar existindo, feito baratas sobreviventes ao holocausto. Se há alguém otimista com o futuro, o é por não ter ainda olhado com atenção para o que Homem tem feito desde o princípio de sua existência. O cenário é mesmo desolador.

Mas o que me preocupa agora são as minhas férias em março. Logo o planeta começará a degringolar de raiva e será bom eu já ter conhecido Buenos Aires ou, ao menos, as cataratas do velho Iguaçu. E já que o mundo vai mesmo acabar - e com ele as lembranças de toda a presente civilização, melhor aproveitar, experimentando toda sorte de prazeres. Se livros e esculturas permanecerão, os nossos pecados serão rapidamente apagados da memória deste mundo. Antes que cheguemos a uma nova era medieval, de reconstrução e paciência, vivamos, aproveitando o que nos resta de uma bonança que em breve restará apenas nos livros de história.