Djavan é outro grande músico que já esteve bem em todas as zonas do inconstante gosto popular. Há quem "deteste" Djavan, hoje. Mas grande parte destes raivosos ouvintes certamente gostariam de Djavan, não estivesse o cantor tão associado ao seu público... Não sei se me explico bem. Sou um sujeito de gostar teimosamente das coisas - não me confundo em preconceitos. Sou apaixonado demais pela arte para cometer a bobagem de vê-la com romantismo. Mas volto a dizer - se é que já disse - que muita coisa do que se gosta, se gosta não pelo objeto em si, mas pelo público que dele já gosta.
Lembro-me de um dia ter conhecido um sujeito de cabelos compridos, camisetas pretas e fama de mau, mesmo entre os maus muito maus do mundo de "metaleiros" que havia em Osasco, nos anos 80. Estávamos numa loja de discos e formentamos uma daquelas conversas sobre a "existência" somente possíveis numa loja de discos. O tal sujeito era um reconhecido especialista do Heavy Metal e suas infinitas vertentes. Era uma "autoridade", mesmo sendo tão repulsivo à idéia de que autoridades existiam. Era, enfim, um sujeito de acostumadas batalhas sangrentas, envolvendo Skin Heads e Rappers.
Confidenciou-me (e logo a mim que nem seu amigo era) que gostava mesmo era de Roberto. Que uma singela canção, tal qual O portão, poderia bem fazê-lo chorar. Contou-me tudo com um tipo de pesar pesado, comovente, quase como se reclamasse de uma injustiça da natureza humana. Como poderia revelar que o próprio preconceito o impedia de desavergonhadamente gostar de Roberto, como também o impedia de gostar de Luiz Gonzaga, Dick Farney ou Chopin? Apenas me pediu segredo. Logo a mim, que nunca soube o seu nome. Soubesse, teria revelado tal segredo a todo mundo. Como não revelar tão bizarra carapuça?
Ouvimos (e vimos) Djavan e a bela Lilás. E revelo, sendo este o método: procuro por algo que eu queria ver (ou ouvir) e penso depois no que possa escrever, a fim de justificar a coisa postada. Penso, escrevo, penso, escrevo... Quase num não pensar - mas tão somente escrever. Feito andar de bicicleta pensando no movimento das nuvens. Vez ou outra tropeço, bato a cara, mas me recomponho - com um pouco de técnica, um pouco de malandragem, todo texto se remenda.
Desejava justificar a presença de Djavan, por aqui, hoje, e acabei escrevendo o texto acima. Nem sei ao certo o que escrevi. E, no momento, não tenho lá muito interesse em saber.
