quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O método revelado.

Não sei ao certo o que se passa na cabeça de muita gente, mas é divertido perceber o quanto aquela tal história de círculo da fortuna vale mesmo para o mundo da música. O que num dia é cult, no outro é pop, no outro é brega, no outro volta a ser cult. E eventualmente surge o limbo. Raul Seixas, hoje, vive uma espécie de limbo autorequisitado. Parece não querer fazer parte com a pobreza de tudo o que há nesta década. Osvaldo Montenegro, jamais no limbo, mas sempre devidamente distante da mídia, o que o torna ainda mais merecedor de elogios. Mas é bem certo que já foi cult, ganhando festival, cantando Agonia; foi pop cantando o que estava na novela. Foi brega depois, quando a canção - que era boa - começou a ensudecer o mundo de tantas desnecessárias execuções. Hoje o que é? Ora, grandes artistas são grandes não exatamente pelo êxtase, mas pela constãncia.

Djavan é outro grande músico que já esteve bem em todas as zonas do inconstante gosto popular. Há quem "deteste" Djavan, hoje. Mas grande parte destes raivosos ouvintes certamente gostariam de Djavan, não estivesse o cantor tão associado ao seu público... Não sei se me explico bem. Sou um sujeito de gostar teimosamente das coisas - não me confundo em preconceitos. Sou apaixonado demais pela arte para cometer a bobagem de vê-la com romantismo. Mas volto a dizer - se é que já disse - que muita coisa do que se gosta, se gosta não pelo objeto em si, mas pelo público que dele já gosta.

Lembro-me de um dia ter conhecido um sujeito de cabelos compridos, camisetas pretas e fama de mau, mesmo entre os maus muito maus do mundo de "metaleiros" que havia em Osasco, nos anos 80. Estávamos numa loja de discos e formentamos uma daquelas conversas sobre a "existência" somente possíveis numa loja de discos. O tal sujeito era um reconhecido especialista do Heavy Metal e suas infinitas vertentes. Era uma "autoridade", mesmo sendo tão repulsivo à idéia de que autoridades existiam. Era, enfim, um sujeito de acostumadas batalhas sangrentas, envolvendo Skin Heads e Rappers.

Confidenciou-me (e logo a mim que nem seu amigo era) que gostava mesmo era de Roberto. Que uma singela canção, tal qual O portão, poderia bem fazê-lo chorar. Contou-me tudo com um tipo de pesar pesado, comovente, quase como se reclamasse de uma injustiça da natureza humana. Como poderia revelar que o próprio preconceito o impedia de desavergonhadamente gostar de Roberto, como também o impedia de gostar de Luiz Gonzaga, Dick Farney ou Chopin? Apenas me pediu segredo. Logo a mim, que nunca soube o seu nome. Soubesse, teria revelado tal segredo a todo mundo. Como não revelar tão bizarra carapuça?


Ouvimos (e vimos) Djavan e a bela Lilás. E revelo, sendo este o método: procuro por algo que eu queria ver (ou ouvir) e penso depois no que possa escrever, a fim de justificar a coisa postada. Penso, escrevo, penso, escrevo... Quase num não pensar - mas tão somente escrever. Feito andar de bicicleta pensando no movimento das nuvens. Vez ou outra tropeço, bato a cara, mas me recomponho - com um pouco de técnica, um pouco de malandragem, todo texto se remenda.

Desejava justificar a presença de Djavan, por aqui, hoje, e acabei escrevendo o texto acima. Nem sei ao certo o que escrevi. E, no momento, não tenho lá muito interesse em saber.

Quarta-feira de cinzas. E cinzeiros.

Voltemos à atividade cotidiana, enquanto no televisor vejo Barcelona versus Liverpool, pela Copa dos Campeões da Europa. Em meu escritório, fumo um Marlboro do tipo azul e o vento que entra pela da janela é feito carinho de mãos espertas. Penso afinal que este blog deveria dedicar, vez ou outra, seu espaço também ao esporte. e isto será feito. Se gosto tanto de futebol, basquete, tenis e de outras atividades semelhantes, deveria eu também mostrar tanta coisa que certamente também é apreciada por todos os leitores desta revista virtual. E comecemos, então, inspirados pelo presente clássico europeu. Assistamos a duas coletâneas de goals de ambos os times. Clássicas imagens dos anos 80, do time da cidade que legou os Beatles para a história da arte, e grandes momentos de Diego Armando Maradona, quando camisa dez do time catalão.



Obs.: Meu primeiro dia oficial de férias. Nenhuma saudade sentirei. E mais me cresce a certeza de que trabalhar é uma triste escravidão ridiculamente remunerada.

sábado, fevereiro 17, 2007

Férias e inatividade.


Volto para o trabalho, naquela repartição de ar rarefeito da Rua Líbero Badaró, tão somente no dia 26 de março. Tenho, portanto, um bom tempo para me dedicar a este blog, além do usual. Mas ainda é mesmo cedo para me comprometer com alguma produção, alguma realização qualquer. Ainda é cedo para que eu me envolva em tarefas ou faça arrumações e consertos. Em verdade, é cedo para qualquer coisa. Sobretudo para reflexões, planejamentos, para o exercício do tédio. É cedo. Definitivamente é.