Dedico esta crônica a alguns sujeitos, os quais ainda tentam, feito o fidalgo Quixote, consertar ou ajustar as coisas deste mundo. Em especial àqueles cuja benevolência e ideal lhes permitem ainda crer, com esperança e ardor, na transformação social e cultural deste mundo por meio de alguma ação singela que se desdobraria depois em milhares de novos efeitos gloriosos, atingindo mesmo aos mais corruptos e egoístas vilões de nosso tempo.
Há cerca de quinze anos, participei - por acaso e com algum enfaro - de minha única ação de caridade em todos estes anos. E tenho por caridade aquilo que se faz a estranhos, sem interesse de que haja retorno, de qualquer natureza, e cujo empenho seja de fato causador de algum prejuízo próprio. Portanto, quaisquer das vezes em que presenteei amigos com livros, mesmo com o propósito de lhes oferecer vasta cultura, ou perdoei as falhas grotescas de outros supostos amigos, mesmo imerecedores, não deveriam, creio eu, ser anotadas em prontuário como prova de minha capacidade caritativa. E nestes doze mil e oito dias de vida, por uma única vez, que eu tenha por registro em minha memória, estive presente numa ação comunitária promovida por alguém de coração cristão e piedoso. A mãe de um velho amigo fazia naquele tempo uma grande quantidade de alimento, com qualidade indiscutível, e distribuía-o, em recipientes cuja vulgaridade nomeia como marmitex, um nome profundamente feio, como quase todos os inventados por obra do comércio, aos mendigos do centro da cidade.
Naquela vez, acompanhei aquela atividade, sem que no entanto eu tivesse feito qualquer coisa além de olhar o pânico de muitos famintos, a cara-de-pau de outros, os quais nem eram mendigos, mas gente de querer comer a comida fresca que era servida com gratuidade, e ainda uma ou outra esquisitice no comportamento humano que não merece, por ora, comentário. Depois disso, eu não negaria, jamais estive a participar, mesmo que em vigilância ociosa, de qualquer outro evento similar. Nem dei esmola a ninguém. E gorjetas, tão somente uma única vez, para uma garçonete de sorriso maravilhoso e olhos negros.
Disto, concluímos todos, que sou um verdadeiro ateu, no sentido mais indesejável do termo, e que não sou merecedor de qualquer felicidade, uma vez que reneguei a tal benevolência cristã, ignorando diariamente os suplícios de dezenas de infelizes, dos mais diversos, que me solicitam algum trocado. Cegos, aleijões, desempregados, velhas, velhos, crianças magras, alguns músicos!, mudos, surdos, dementes e mais um número vasto nesta galeria de criaturas, cujo destino (ou a impiedosa debilidade social) levou à mendicância como forma de sobreviver e, em alguns casos, viver sem esforços além de grande ousadia e interpretação, digna de prêmio da Academia. Mas não obstante o fato de que eu realmente concordo com a conclusão, devo eu me justificar com o interesse certo de fazê-lo tão somente para alardear para a posteridade algum ideal, visto que minha consciência nada sofre e nem creio que, além da posteridade, possa eu influir nos interesses alheios no momento presente.
O egoísmo é tão justo quanto a caridade, se o pesarmos numa balança em que não se permita pesar qualquer transcendência. Nos livremos todos da culpa, de qualquer espécie. E devo confessar que de culpa eu nada tenho, sendo assim um verdadeiro egoísta sem culpa. E o que se vê, aos montes, são egoístas que se sentem culpados e praticam a caridade como forma de compensação diante da própria consciência e do julgamento das divindades em que depositam suas fichas. Pensemos depois em nos livrarmos de qualquer retorno - pois é certo que muitos caridosos o são por pensar no céu e inferno, o que não deixa de ser a mesma coisa que culpabilidade. Mas nos livremos, então, de toda e qualquer culpa pelas mazelas do mundo, sabedores nós de que somos contra tudo aquilo que torna este mundo um miserável desconcerto. Que somos contra a guerra, contra o preconceito, contra as religiões, contra o interesse irrestrito pelo dinheiro, contra aqueles cujo interesse é explorar os demais, como forma de conseguir o seu objeto de desejo. Ora, tal coisa nos dá alguma paz. Depois, ainda, veja o ser humano com olhos aguçados, bem sagazes, enxergando-lhe todos os vícios e faltas, a sua preguiça, a sua incapacidade de cuidar da sua vida, sem incomodar a dos outros. Veja com todo o carinho possível se há na raça humana, afinal, exemplos grandes de que a mesma raça tem ainda algum crédito, tendo comprovado sua superioridade. Veja se há, entre o egoísmo dos ricos e o egoísmo dos cristãos alguma semelhança com aquele a que me refiro aqui: Oscar Wilde, nos disse que “egoísmo não é viver como queremos, egoísmo é querer que os outros vivam como queremos que eles vivam” e que pensamento poderia haver de mais justo? Não querem os religiosos que todos sigam o mesmo profeta, num padrão de comportamento?
A verdade é que não usaria vasta filosofia para defender-me, o que soaria pedante e coisa de gente culpada, mas não sou tolo para não ter em conta que o mundo é todo errado, a começar por aquilo que menos nos parece errado, e que tais anotações são mais antigas que a filosofia socrática. E tudo aquilo que eu faria para ajudar a contribuir com o mundo não receberia de ninguém, deveras, o título de caridade. Teria enorme honra de ensinar literatura e música a quem quer fosse, ensinaria a amar a poesia e mesmo a ler qualquer coisa, fosse eu capaz de alfabetizar alguém. Ensinaria o que sei de história da arte, das manhas de nosso vernáculo e o que mais me fosse possível. Tais atividades me caberiam e eu as faria certamente, tivesse eu a certeza de encontrar gente de verdadeiro interesse – o que o meu ceticismo não me permite supor.
Mas o que se vê, bem o sei, é que há uma legião de caridosos que distribuem suas esmolas a todo canto, mas seriam incapazes de compartilhar algum conhecimento. Há muitos que, sinceros, levam comida e roupas aos pobres, mas contribuem de outro modo, para a mesma miséria humana, seja alimentando alguma seita propagadora de preconceitos, seja elegendo os mesmos políticos que perpetuam a miséria entre nós. Por fim, que já me estendi além do aconselhável: ninguém deveria arrotar sua caridade quando o faz por crer na bondade humana ou no conserto das coisas. Ou quase como nos diria aquele provérbio chinês que diz “antes de dar comida a um mendigo, dá-lhe uma vara e ensina-lhe a pescar”. Coisa assim, não obstante a fome sincera impedir o aprendizado de qualquer coisa. Mas seria certo evitar que a mendicância continue em níveis tão fartos, para o bem de muitos caridosos.
O egoísta, para esta gente, é o ímpio ateu que nunca prega a salvação etérea de porcaria nenhuma. E neste caso, não vejo diferença alguma entre o que faz e o que não faz. Uma vez que a miséria sempre é a mesma, quando alimentada para a salvação daqueles que nela se sustentam.
Há cerca de quinze anos, participei - por acaso e com algum enfaro - de minha única ação de caridade em todos estes anos. E tenho por caridade aquilo que se faz a estranhos, sem interesse de que haja retorno, de qualquer natureza, e cujo empenho seja de fato causador de algum prejuízo próprio. Portanto, quaisquer das vezes em que presenteei amigos com livros, mesmo com o propósito de lhes oferecer vasta cultura, ou perdoei as falhas grotescas de outros supostos amigos, mesmo imerecedores, não deveriam, creio eu, ser anotadas em prontuário como prova de minha capacidade caritativa. E nestes doze mil e oito dias de vida, por uma única vez, que eu tenha por registro em minha memória, estive presente numa ação comunitária promovida por alguém de coração cristão e piedoso. A mãe de um velho amigo fazia naquele tempo uma grande quantidade de alimento, com qualidade indiscutível, e distribuía-o, em recipientes cuja vulgaridade nomeia como marmitex, um nome profundamente feio, como quase todos os inventados por obra do comércio, aos mendigos do centro da cidade.
Naquela vez, acompanhei aquela atividade, sem que no entanto eu tivesse feito qualquer coisa além de olhar o pânico de muitos famintos, a cara-de-pau de outros, os quais nem eram mendigos, mas gente de querer comer a comida fresca que era servida com gratuidade, e ainda uma ou outra esquisitice no comportamento humano que não merece, por ora, comentário. Depois disso, eu não negaria, jamais estive a participar, mesmo que em vigilância ociosa, de qualquer outro evento similar. Nem dei esmola a ninguém. E gorjetas, tão somente uma única vez, para uma garçonete de sorriso maravilhoso e olhos negros.
Disto, concluímos todos, que sou um verdadeiro ateu, no sentido mais indesejável do termo, e que não sou merecedor de qualquer felicidade, uma vez que reneguei a tal benevolência cristã, ignorando diariamente os suplícios de dezenas de infelizes, dos mais diversos, que me solicitam algum trocado. Cegos, aleijões, desempregados, velhas, velhos, crianças magras, alguns músicos!, mudos, surdos, dementes e mais um número vasto nesta galeria de criaturas, cujo destino (ou a impiedosa debilidade social) levou à mendicância como forma de sobreviver e, em alguns casos, viver sem esforços além de grande ousadia e interpretação, digna de prêmio da Academia. Mas não obstante o fato de que eu realmente concordo com a conclusão, devo eu me justificar com o interesse certo de fazê-lo tão somente para alardear para a posteridade algum ideal, visto que minha consciência nada sofre e nem creio que, além da posteridade, possa eu influir nos interesses alheios no momento presente.
O egoísmo é tão justo quanto a caridade, se o pesarmos numa balança em que não se permita pesar qualquer transcendência. Nos livremos todos da culpa, de qualquer espécie. E devo confessar que de culpa eu nada tenho, sendo assim um verdadeiro egoísta sem culpa. E o que se vê, aos montes, são egoístas que se sentem culpados e praticam a caridade como forma de compensação diante da própria consciência e do julgamento das divindades em que depositam suas fichas. Pensemos depois em nos livrarmos de qualquer retorno - pois é certo que muitos caridosos o são por pensar no céu e inferno, o que não deixa de ser a mesma coisa que culpabilidade. Mas nos livremos, então, de toda e qualquer culpa pelas mazelas do mundo, sabedores nós de que somos contra tudo aquilo que torna este mundo um miserável desconcerto. Que somos contra a guerra, contra o preconceito, contra as religiões, contra o interesse irrestrito pelo dinheiro, contra aqueles cujo interesse é explorar os demais, como forma de conseguir o seu objeto de desejo. Ora, tal coisa nos dá alguma paz. Depois, ainda, veja o ser humano com olhos aguçados, bem sagazes, enxergando-lhe todos os vícios e faltas, a sua preguiça, a sua incapacidade de cuidar da sua vida, sem incomodar a dos outros. Veja com todo o carinho possível se há na raça humana, afinal, exemplos grandes de que a mesma raça tem ainda algum crédito, tendo comprovado sua superioridade. Veja se há, entre o egoísmo dos ricos e o egoísmo dos cristãos alguma semelhança com aquele a que me refiro aqui: Oscar Wilde, nos disse que “egoísmo não é viver como queremos, egoísmo é querer que os outros vivam como queremos que eles vivam” e que pensamento poderia haver de mais justo? Não querem os religiosos que todos sigam o mesmo profeta, num padrão de comportamento?
A verdade é que não usaria vasta filosofia para defender-me, o que soaria pedante e coisa de gente culpada, mas não sou tolo para não ter em conta que o mundo é todo errado, a começar por aquilo que menos nos parece errado, e que tais anotações são mais antigas que a filosofia socrática. E tudo aquilo que eu faria para ajudar a contribuir com o mundo não receberia de ninguém, deveras, o título de caridade. Teria enorme honra de ensinar literatura e música a quem quer fosse, ensinaria a amar a poesia e mesmo a ler qualquer coisa, fosse eu capaz de alfabetizar alguém. Ensinaria o que sei de história da arte, das manhas de nosso vernáculo e o que mais me fosse possível. Tais atividades me caberiam e eu as faria certamente, tivesse eu a certeza de encontrar gente de verdadeiro interesse – o que o meu ceticismo não me permite supor.
Mas o que se vê, bem o sei, é que há uma legião de caridosos que distribuem suas esmolas a todo canto, mas seriam incapazes de compartilhar algum conhecimento. Há muitos que, sinceros, levam comida e roupas aos pobres, mas contribuem de outro modo, para a mesma miséria humana, seja alimentando alguma seita propagadora de preconceitos, seja elegendo os mesmos políticos que perpetuam a miséria entre nós. Por fim, que já me estendi além do aconselhável: ninguém deveria arrotar sua caridade quando o faz por crer na bondade humana ou no conserto das coisas. Ou quase como nos diria aquele provérbio chinês que diz “antes de dar comida a um mendigo, dá-lhe uma vara e ensina-lhe a pescar”. Coisa assim, não obstante a fome sincera impedir o aprendizado de qualquer coisa. Mas seria certo evitar que a mendicância continue em níveis tão fartos, para o bem de muitos caridosos.
O egoísta, para esta gente, é o ímpio ateu que nunca prega a salvação etérea de porcaria nenhuma. E neste caso, não vejo diferença alguma entre o que faz e o que não faz. Uma vez que a miséria sempre é a mesma, quando alimentada para a salvação daqueles que nela se sustentam.