terça-feira, setembro 11, 2007

Aquilo que nos silencia: um elogio ao egoísmo.

Dedico esta crônica a alguns sujeitos, os quais ainda tentam, feito o fidalgo Quixote, consertar ou ajustar as coisas deste mundo. Em especial àqueles cuja benevolência e ideal lhes permitem ainda crer, com esperança e ardor, na transformação social e cultural deste mundo por meio de alguma ação singela que se desdobraria depois em milhares de novos efeitos gloriosos, atingindo mesmo aos mais corruptos e egoístas vilões de nosso tempo.

Há cerca de quinze anos, participei - por acaso e com algum enfaro - de minha única ação de caridade em todos estes anos. E tenho por caridade aquilo que se faz a estranhos, sem interesse de que haja retorno, de qualquer natureza, e cujo empenho seja de fato causador de algum prejuízo próprio. Portanto, quaisquer das vezes em que presenteei amigos com livros, mesmo com o propósito de lhes oferecer vasta cultura, ou perdoei as falhas grotescas de outros supostos amigos, mesmo imerecedores, não deveriam, creio eu, ser anotadas em prontuário como prova de minha capacidade caritativa. E nestes doze mil e oito dias de vida, por uma única vez, que eu tenha por registro em minha memória, estive presente numa ação comunitária promovida por alguém de coração cristão e piedoso. A mãe de um velho amigo fazia naquele tempo uma grande quantidade de alimento, com qualidade indiscutível, e distribuía-o, em recipientes cuja vulgaridade nomeia como marmitex, um nome profundamente feio, como quase todos os inventados por obra do comércio, aos mendigos do centro da cidade.

Naquela vez, acompanhei aquela atividade, sem que no entanto eu tivesse feito qualquer coisa além de olhar o pânico de muitos famintos, a cara-de-pau de outros, os quais nem eram mendigos, mas gente de querer comer a comida fresca que era servida com gratuidade, e ainda uma ou outra esquisitice no comportamento humano que não merece, por ora, comentário. Depois disso, eu não negaria, jamais estive a participar, mesmo que em vigilância ociosa, de qualquer outro evento similar. Nem dei esmola a ninguém. E gorjetas, tão somente uma única vez, para uma garçonete de sorriso maravilhoso e olhos negros.

Disto, concluímos todos, que sou um verdadeiro ateu, no sentido mais indesejável do termo, e que não sou merecedor de qualquer felicidade, uma vez que reneguei a tal benevolência cristã, ignorando diariamente os suplícios de dezenas de infelizes, dos mais diversos, que me solicitam algum trocado. Cegos, aleijões, desempregados, velhas, velhos, crianças magras, alguns músicos!, mudos, surdos, dementes e mais um número vasto nesta galeria de criaturas, cujo destino (ou a impiedosa debilidade social) levou à mendicância como forma de sobreviver e, em alguns casos, viver sem esforços além de grande ousadia e interpretação, digna de prêmio da Academia. Mas não obstante o fato de que eu realmente concordo com a conclusão, devo eu me justificar com o interesse certo de fazê-lo tão somente para alardear para a posteridade algum ideal, visto que minha consciência nada sofre e nem creio que, além da posteridade, possa eu influir nos interesses alheios no momento presente.

O egoísmo é tão justo quanto a caridade, se o pesarmos numa balança em que não se permita pesar qualquer transcendência. Nos livremos todos da culpa, de qualquer espécie. E devo confessar que de culpa eu nada tenho, sendo assim um verdadeiro egoísta sem culpa. E o que se vê, aos montes, são egoístas que se sentem culpados e praticam a caridade como forma de compensação diante da própria consciência e do julgamento das divindades em que depositam suas fichas. Pensemos depois em nos livrarmos de qualquer retorno - pois é certo que muitos caridosos o são por pensar no céu e inferno, o que não deixa de ser a mesma coisa que culpabilidade. Mas nos livremos, então, de toda e qualquer culpa pelas mazelas do mundo, sabedores nós de que somos contra tudo aquilo que torna este mundo um miserável desconcerto. Que somos contra a guerra, contra o preconceito, contra as religiões, contra o interesse irrestrito pelo dinheiro, contra aqueles cujo interesse é explorar os demais, como forma de conseguir o seu objeto de desejo. Ora, tal coisa nos dá alguma paz. Depois, ainda, veja o ser humano com olhos aguçados, bem sagazes, enxergando-lhe todos os vícios e faltas, a sua preguiça, a sua incapacidade de cuidar da sua vida, sem incomodar a dos outros. Veja com todo o carinho possível se há na raça humana, afinal, exemplos grandes de que a mesma raça tem ainda algum crédito, tendo comprovado sua superioridade. Veja se há, entre o egoísmo dos ricos e o egoísmo dos cristãos alguma semelhança com aquele a que me refiro aqui: Oscar Wilde, nos disse que “egoísmo não é viver como queremos, egoísmo é querer que os outros vivam como queremos que eles vivam” e que pensamento poderia haver de mais justo? Não querem os religiosos que todos sigam o mesmo profeta, num padrão de comportamento?

A verdade é que não usaria vasta filosofia para defender-me, o que soaria pedante e coisa de gente culpada, mas não sou tolo para não ter em conta que o mundo é todo errado, a começar por aquilo que menos nos parece errado, e que tais anotações são mais antigas que a filosofia socrática. E tudo aquilo que eu faria para ajudar a contribuir com o mundo não receberia de ninguém, deveras, o título de caridade. Teria enorme honra de ensinar literatura e música a quem quer fosse, ensinaria a amar a poesia e mesmo a ler qualquer coisa, fosse eu capaz de alfabetizar alguém. Ensinaria o que sei de história da arte, das manhas de nosso vernáculo e o que mais me fosse possível. Tais atividades me caberiam e eu as faria certamente, tivesse eu a certeza de encontrar gente de verdadeiro interesse – o que o meu ceticismo não me permite supor.

Mas o que se vê, bem o sei, é que há uma legião de caridosos que distribuem suas esmolas a todo canto, mas seriam incapazes de compartilhar algum conhecimento. Há muitos que, sinceros, levam comida e roupas aos pobres, mas contribuem de outro modo, para a mesma miséria humana, seja alimentando alguma seita propagadora de preconceitos, seja elegendo os mesmos políticos que perpetuam a miséria entre nós. Por fim, que já me estendi além do aconselhável: ninguém deveria arrotar sua caridade quando o faz por crer na bondade humana ou no conserto das coisas. Ou quase como nos diria aquele provérbio chinês que diz “antes de dar comida a um mendigo, dá-lhe uma vara e ensina-lhe a pescar”. Coisa assim, não obstante a fome sincera impedir o aprendizado de qualquer coisa. Mas seria certo evitar que a mendicância continue em níveis tão fartos, para o bem de muitos caridosos.

O egoísta, para esta gente, é o ímpio ateu que nunca prega a salvação etérea de porcaria nenhuma. E neste caso, não vejo diferença alguma entre o que faz e o que não faz. Uma vez que a miséria sempre é a mesma, quando alimentada para a salvação daqueles que nela se sustentam.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Som e imagem.

Interessante vídeo que une Bach e imagens do espaço. No entanto, mesmo considerando que o vídeo é realmente de muito merecimento, nota-se aqui um confronto entre as excelências das imagens e a maravilha daquilo que se ouve. E para um mortal de bom senso não é salutar entender Bach como uma música incidental para imagens - mesmo as mais nobres. E nem é razoável se considerar que fotos do universo possam servir de pretexto para que se ouça Bach. Em verdade tal consideração somente poderia povoar a cabeça de um pensador neurótico como eu. Veja o vídeo, ó meu imaginário leitor, e dê consideração para o que lhe parecer melhor. No meu caso, devo confessar, por mais que veja a beleza em estrelas e planetas coloridos, não pude deixar de fechar os olhos e me dedicar tão somente ao que me invadia os ouvidos.

Posted Apr 23, 2007Bach's timeless work, performed on original instruments by Voices of Music and accompanied by a montage of the most beautiful images of deep space. Featuring Elizabeth Blumenstock and Katherine Kyme, baroque violins; Lisa Grodin, baroque viola, Joanna Blendulf, baroque cello; William Skeen, violone; Hanneke van Proosdij, chamber organ; David Tayler, theorbo. NB: This looks and sounds fabulous in high resolution video and stereo: http://stage6.divx.com/user/Walvis2007/videos/


Assuntos esparramados para um dia de calor.

Aniversário.

Daqui a aproximadamente quarenta dias, devo eu completar trinta anos, caso não me ocorra qualquer tragédia - que bem pode acontecer, uma vez que os vivos, todos eles, sofrem dos perigos da probabilidade. Mas o comentário, o qual parece sem eira, serve-me mesmo para que eu me prometa alguma comemoração, alguma autopromoção: pois o sujeito taciturno e melancólico que não se permite, vez ou outra, alguma folia despropositada, está certamente fadado à infelicidade eterna. E, longe de mim ser um otimista, espero por alguns novos encantos nesta minha nova idade, a fim de ter da vida um pouco mais de leveza.

Assim, pelas razões apresentadas, convido aqueles meus amigos de sempre, a planejarem comigo um evento de alguma monta, cuja finalidade seja a de me devolver alguma estima e algum êxtase - daqueles que eu já tive nalguns minutos desta vida. Na sexta-feira, dia 26 de outubro, que eu, sei lá como, esteja tomado por algum contentamento. Façamos algo, ó céus, que não me custe os olhos, mas que me faça crer nos poderes mundanos dos rituais.


Suicídio.

A vida não é fácil para qualquer um de nós? Ora, esta pergunta tem todo o sentido possível e é plausível que nos metamos a nos comparar com os demais, quando o caso é de verificar se tão somente nós estamos um tanto enfadados com a existência. No meio de uma reflexão do gênero, quando eu me sentia um tanto confuso, quedei-me por fazer uma breve pesquisa sobre o suicídio e encontrei diversas notícias, as quais me tranqüilizaram: eu não sou o único a, amiúde, sentir que a vida é um tanto pesada e escorregadia. Mas, antes que se espante o meu imaginário leitor, não sou dos que já pensaram no suicídio, amante que sou de Mozart, Beatles e Balzac - apenas para citar três motivos para que eu viva ainda mais mil anos.

"A OMS - Organização Mundial da Saúde estima que um milhão de pessoas cometeram suicídio no ano de 2000 em todo o mundo, e que ocorre uma morte para cada 100 ou 200 tentativas de suicídio. Em todos o países esta é uma das três maiores causas de morte na população entre 15 e 34 anos. O Brasil vem acompanhando a tendência mundial de aumento deste índice, principalmente entre a população jovem. No município de São Paulo, considera-se que as estatísticas oficiais subestimem a ocorrência de suicídios . Mesmo assim, o suicídio foi a quarta causa de morte na população entre 10 e 24 anos em 2001, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde. No período de 1996 a 2002 foram registrados de 400 a 500 suicídios a cada ano em São Paulo, sendo que 80% deles na população com até 54 anos de idade".

O trecho acima foi retirado de uma notícia do sítio do CVV. E qualquer pesquisa frívola em nosso sábio Google pode dar ao interessado um panorama razoável do tema. Em geral, o que se vê é uma sinistra concordância: não há estatísticas confiáveis em relação ao suicídio, por motivos dos mais diversos, e o que se supõe é haver cerca de um suicídio a cada quarenta segundos, em todo o planeta.

Estava eu a refletir na chatice de horas mornas da vida e concluí que deve mesmo haver um número alto de gente que se cansa desta brincadeira. Sobretudo para aqueles cujo vazio apenas se preenche com ilusões do tipo culto em igreja ou mãos erguidas para o céu. Nisto, aliás, as religiões tem o seu farto papel, salvando da morte uma vasta legião de infelizes. Ontem, num curto espaço de tempo, tive duas visões que ainda mais me levaram a tal conclusão, as quais serão abaixo exemplificadas.


Personalidade.

Não sei o que se passa na cabeça desta muita molecada. E poderia mesmo dizer que não me interessa. Mas o que leva tanta gente a ser tão igual? Todos com bonés na cabeça! Todos procurando por uma identidade? Que estranheza! Não seria certo que cada um buscasse sua marca, seu estilo pessoal, numa antropofagia de muitos elementos? Passava eu diante da saída de uma destas baladas, quando me deparei com centenas de rapazes e todos vestiam-se com os mesmo trajes: bonés, camiseta larga, calça larga e tênis, os quais me pareceram, sem exceção a mesma triste figura.

Alguém tentará me lembrar que tal coisa é comum e que noutras épocas a mesma coisa se dava. Eu responderia que jamais o igual foi tão igual e os diferentes despareceram por completo. São bonés e bonés e bonés. E disto, por bem, temos a conclusão de que está faltando personalidade e auto-estima (e mais um punhado de esperança) para a juventude deste canto do planeta.


Igreja.

Não sei o que se passa na cabeça desta gente mais madura. E poderia mesmo dizer que não me interessa. Mas o que leva tanta gente a ser tão igual? Tantos a levantar as mãos para as alegrias do pastor! Todos procurando por uma identidade? Que estranheza! Não seria certo que cada um buscasse seu entedimento da espiritualidade, seu convicção pessoal, numa antropofagia de muitos elementos? Passava eu diante um gigantesca igreja e pela porta pude ver um número inacreditável de seres a bradar um aleluia ao som de uma canção ruim, com evocações das quais eu fiz o favor de me esquecer. Culpa por uma vida inóspita? Uma tentativa de preencher aquele mesmo vazio de tudo, o qual atormenta a todos nós?

A qualquer hora eu mesmo deterei um desses fiéis ouriçados e lhe perguntarei: esta sua pajelança é séria? Ou você assim se entrega por preguiça de melhor empregar a sua fúria? Ora, os moços de boné, os crentes, religiosos de louvores fervorosos, quanta gente que me é estranha! Se em minha mocidade eu me esforçava para fugir da moda e do invisível, se nesta vida tenho buscado por conhecimento que me faça ateu ou me misture em fé sincera e justa, como posso ter par com estes absurdos?


Mais suicídio.

Tudo se amarra por fim, nesta minha nova crônica em pedaços. Preciso me entregar a algum ritual pagão, de muito vinho e canções de doce melodia, em meu próximo aniversário. Devo me convencer que grande parte de minhas agruras não são minhas, mas de toda a gente que passa por este século de muitos vazios. Devo saber disso, não me culpando demais por não saber aproveitar a vida com toda a melhor graça. Pois eu vejo, afinal, que tudo se explica: o número de suicídios que só aumenta, as igrejas e templos que mais enriquecem, os bonés que mais cobrem as cabeças ocas, cada vez mais distantes de ideais e sonhos.