segunda-feira, novembro 08, 2021

A pele e o pão de todos nós

Há exatos 30 anos eu compus "Pele e pão". Deste momento em minha vida, a manhã de 8 de novembro de 1991, no pátio do Ceneart, me vem logo a lembrança do meu espanto de escritor, ao perceber que me vinha de repente uma canção sobre algo tão diverso: era sobre o medo que eu falava, sobre a maneira estranha que enfrentamos a vida e as suas guerras. Não era mais uma canção de amor, não era mais uma canção política: me vinha uma metáfora poderosa. Para mim, meus queridos e imaginários leitores, um clássico para marcar aquele ano de 1991.


 


Nas ruas, em noites de carnaval, nossa alegria é tanta,
que nos sentimos bebês (no berço) envoltos de tudo.
Nossa vida é tanta que trocamos o pão pela pele
e esquecemos de matar a fome
e depois
ficamos doentes, ficamos doentes, ficamos doentes,
arrependidos e a procura de pão!

Nos palcos, nos campos, nas camas, nosso medo é tanto
que nos sentimos crianças, em volta de um erro.

Nossa vida é tanta que damos o pão pela perfeição
mas esquecemos de matar a fome.
Então o corpo adoece, então a vida adoece,
então o peito…e vem a vertigem e o furacão!

Em longas noites solitárias, nossa tristeza é tanta
que parecemos apaixonados em volta da incerteza.

Nossa vida é tanta que trocamos o pão pelas lágrimas
e esquecemos de matar a fome
e só nos resta pedir todo dia o pão que o diabo amassou 

pra entender o mundo
pra entender o mundo
pra entender o mundo...


sexta-feira, novembro 05, 2021

A solidão é a sorte de alguns

    "A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais" é aquela frase de Arthur Schopenhauer. Tenho refletido sobre isso. A vida é nada: horas enormes em longos dias em anos curtos e décadas breves. E vez ou outra, nesta longa aventura, me senti e me sinto só, pouco além de mim, meio no desassossego da quietude. Em silêncio de tudo.
    Foi sempre o que desejei, afinal. Viver evitando a busina da desordem alheia. "Inferno são os outros" diz a velha máxima de Sartre. Mas eu digo além: barulho são os outros. Este é o "egoísmo do silêncio", diram alguns e eu não poderia fingir que não é certo. Sim, todo silêncio é antes de tudo um egoísmo calhorda.
    Pudera apenas que todos pudessem compreender que a mim este silêncio é açúcar, alimento para a compreensão da vida. Pudera apenas que compreendessem: já havia barulho demais dentro da minha cabeça. Já havia uma sinfonia perigosa a me estripar a paz.


segunda-feira, novembro 01, 2021

Irmandade, canção para os amigos

Palavras sobre "Irmandade",  canção de Planetas Vivos, de 1990, presente na coletânea Obras Completas: volume 1, que escrevi para o site gerrirodrian.com:


    "Vivíamos tempos difíceis, naquele ano de 1990. O país estava bagunçado, politicamente caótico. A AIDS atormentava as relações e matava nossos ídolos. Não sabíamos se era justo ter esperança.
    E, assim como atualmente, alguns dias eram de total desânimo.
    Eu era tão jovem mas já me sentia do lado de fora, já me sentia inimigo da ordem, já sabia bem quem eram os vilões. Sabíamos - eu e alguns dos meus amigos daqueles anos, sabíamos bem quem eram os manipuladores, os hipócritas.
    'Irmandade' foi feita certa noite, quando havia uma reunião entre estes amigos. Eles falavam, discutiam algum assunto daqueles costumeiros, envolvendo filosofia ou política ou arte. Eu estava lá, entre eles, mas num canto estava absorto, à parte, com o violão, inspirado por aquele momento.
    Então conversavam, acirradamente, tão envolvidos quanto eu. Sequer sabiam que eu estava a escrever. Eram uns quatro ou cinco rapazes tentando se posicionar no mundo, tentando fazer valer seus ideais.
    Compus uma canção que era um confronto, uma declaração de guerra e a autoafirmação de um posicionamento intelectual. Sentia bem que era inútil lutar - eles eram tantos! Eram desonestos, eram descaradamente desonestos! E o que tínhamos nós além de asas medíocres?
    Passaram-se trinta anos. Alguns destes jovens hoje são "chatos e xucros", outros ainda sobrevivem idealistas, rebeldes nesta guerra em que só nos resta seguir adiante, dentro de cada palavra.
    Inexplicavelmente, também 'Irmandade' se manteve só em manuscrito e arquivo de memória. Uma canção que é tão atual, tão certeira - um hino até, que se manteve hibernando, enquanto eu me ocupava com a vida."