Há exatos 30 anos eu compus "Pele e pão". Deste momento em minha vida, a manhã de 8 de novembro de 1991, no pátio do Ceneart, me vem logo a lembrança do meu espanto de escritor, ao perceber que me vinha de repente uma canção sobre algo tão diverso: era sobre o medo que eu falava, sobre a maneira estranha que enfrentamos a vida e as suas guerras. Não era mais uma canção de amor, não era mais uma canção política: me vinha uma metáfora poderosa. Para mim, meus queridos e imaginários leitores, um clássico para marcar aquele ano de 1991.
Nas ruas, em noites de carnaval, nossa alegria é tanta,
que nos sentimos bebês (no berço) envoltos de tudo.
Nossa vida é tanta que trocamos o pão pela pele
e esquecemos de matar a fome
e depois
ficamos doentes, ficamos doentes, ficamos doentes,
arrependidos e a procura de pão!
Nos palcos, nos campos, nas camas, nosso medo é tanto
que nos sentimos crianças, em volta de um erro.
Nossa vida é tanta que damos o pão pela perfeição
mas esquecemos de matar a fome.
Então o corpo adoece, então a vida adoece,
então o peito…e vem a vertigem e o furacão!
Em longas noites solitárias, nossa tristeza é tanta
que parecemos apaixonados em volta da incerteza.
Nossa vida é tanta que trocamos o pão pelas lágrimas
e esquecemos de matar a fome
e só nos resta pedir todo dia o pão que o diabo amassou
pra entender o mundo
pra entender o mundo
pra entender o mundo...