quarta-feira, setembro 11, 2024

Osasco, recordista de uma desgraça

“Melhor clima do mundo! Aqui, o calor que só nos delicia em medida e nem nos sobe a pressão; frio que gostamos de sentir na pele; garoas salvadoras e chuvas abundantes”, eu ouvia e pensava na sorte que tinha. 

Como seria viver na Londres cinzenta ou no Cairo acalorado? Ou nos terremotos de Tóquio ou na friaca de Moscou? 

Minha Osasco tropical, lugar fresco, que recebia de banda os ventos que chegavam do Oeste, vindo lá dos pés do Rio Paraná, cortada por um rio vigoroso de tantos córregos afluentes, separada da triste Capital pelos bosques do Butantã.
 
Eu, pequeno, morando nos limites do Jardim Sindona, tomava minha coordenada geográfica como um privilégio e via aquela linha imaginária no mapa-mundi, o tal Trópico de Capricórnio, passando tão perto, como uma justa compensação por viver no fim do mundo. 

Até o cantor na televisão cantava com orgulho um “moro num país tropical”, refrão exaltado por toda a gente, sorrindo com o privilégio de estar na sala terrestre mais bem climatizada. Que sorte a nossa.

Todos, quando voltavam de viagem pra qualquer lugar, voltavam reclamando do clima do lugar visitado. Qualquer outro canto do mundo era mais quente ou frio, ou mais árido ou úmido ou insuportável de alguma maneira. 

Voltar para Osasco era voltar para o melhor dos refrescos, onde a respiração naturalmente respirava.

As décadas voaram e hoje esta cidade é agora o epicentro do pior ar respirável em todo o planeta Terra, essa enorme bola onde cabem oito bilhões de humanos, geralmente equivocados.

Oito bilhões de humanos equivocados sujam o planeta todo, o que é inclusive compreensível, visto a quantidade exagerada deste tipo de animal.

Mas chega a ser incompreensível que a Osasco tropical de minha infância encontre-se agora recordista de uma desgraça. De berço tropical, agora é cidade de distopia. 

E, em verdade, cá entre nós, mesmo se só estivéssemos apenas entre as mil piores, já seríamos ridículos. Mas alcançar o topo?!

sexta-feira, agosto 23, 2024

Em vão.



Curiosidade. Escrevi “Em vão”, num sábado solitário em 15 de março de 2003. 

Além de tudo o que representam pra mim, filhas, minhas 190 músicas são fotografias do meu álbum. Cada uma delas me leva a cantos da minha vida, alguns até bastante desagradáveis e muitos das quais eu já teria me esquecido por completo, não fosse a filha nascida.


“Em vão”, balada romântica, tem três partes que nasceram cada uma em diferentes tropeços e épocas, e que só puderam receber letra e forma nesse tal sábado citado em que me senti triste o suficiente para forjar a unidade com as três melodias.


Hoje, vinte e um anos depois, talvez eu tivesse motivo para estar triste o suficiente para finalmente gravar e produzir uma canção que seria, afinal, o supra sumo dos meus dissabores.


Mas não. Não estou triste hoje, nada disso. 


Estou é querendo livrar-me de tanto sentimento de abandono, vibração démodé que os jovens de hoje acham até caso para psicanalista.


Quem é que em pleno 2024 ainda morre de amor? Eu?


Que a canção pelo menos vá para os catálogos, como fotografia de um lirismo que se perdeu.


Quem é que ainda é tão bobo capaz de morrer de amor, afinal?

quinta-feira, agosto 22, 2024

Poema Honesto


Foram tantos os caramelos e torresmos,

tantas as tigelas de mingau,

que eu deveria hoje ser morbidamente gordo.

Mas não sou e tenho fome ainda.


Foram tantas as substâncias,

tanta boemia e festas,

que eu deveria ter perdido o senso e me dar por satisfeito, 

já sereno em cansaço.


Foram tantos os amores e carinhos,

tantas as bocas em delírios,

que eu deveria hoje estar pleno por tanto amor que me deram.

Mas não estou.


Eu não deveria reclamar e maldizer a vida.

A vida me deu pouco,

que tudo o que tenho, se tenho

conquistei em aventuras de Hércules.


Eu não deveria me sentir pobre, maltrapilho.

A vida me deu muito

e sei bem dos tesouros que vi pelos olhos 

e guardo comigo.


Sou um milionário das experiências doces.

Lembranças não alimentam a boca

mas iluminarão as noites que virão.

Lembranças, tantas, que eu deveria por aí andar feito bobo sorrindo.


Mas não. 

Vez ou outra só, distraído.