terça-feira, outubro 22, 2024

Sabedoria é uma farsa.

Certa vez ouvi um provérbio chinês que dizia “se você não é bonito aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta e sábio aos cinquenta anos, você nunca será”.

Ouvi bem jovem e pensei nisso em cada um desses aniversários, sem atingir meta alguma com louvor, embora aos vinte não fosse de se jogar fora, aos trinta não fosse um fracote e aos quarenta vivesse sob um teto seguro, com home theater e Playstation, o que já é boa riqueza num mundo de tanta miséria.

Agora, chegando aos cinquenta, afinal, penso nessa tal sabedoria que já deve estar comigo agora: depois de tanta vida, posso afirmar sabiamente que não existe isso de sabedoria. É um papo furado, um fetiche bocó, uma ilusão de arrogante.

Cada um tem a sua vida pra levar, como pode e consegue, em diferentes configurações e quase qualquer generalização é inútil. 

Quase nada do que é aconselhado por aí me cabe e quase nenhum apontamento que eu possa lançar servirá a quem leva uma vida tão diversa, em contexto tão diverso, com crenças tão diversas.  Meu mais sábio conselho será uma loucura para a maioria.

Assim, quase todos estes conselhos dados, por muitos que se veem sábios, são inúteis. Escritores, pastores, padres, filósofos e sei lá mais quais iludidos propagam seus apontamentos pueris a tantos outros, em entrevistas, podcasts e afins, tantos a falar obviedades genéricas, todos desesperados em parecer especialistas da existência.

Tanta poesia feita se achando sábia, tantas palavras escritas aqui e acolá, frases apenas, punhado de palavras, “aforismos” pra parecer elegante. 

Mas, convenhamos, que importa afinal que haja tanto simulacro, se praticamente tudo na vida é apenas isso? Se pra alguns é satisfatório e lhes preenche os ocos todos de sua existência, ótimo. 

Brinquemos de ser o novo Confúcio, o novo Nietzsche. Brinquemos. Sempre haverá mesmo quem se impressione por qualquer frase de efeito.

Assim, a sabedoria me mostra que eu devo me calar, afirmando que a ideia de sabedoria é só uma anedota boba, pra gente brincar de Homo Sapiens Sapiens.

A estupidez, no entanto, sabiamente afirmo, existe muito, materializada em carne e osso, com CPF e CNPJ e está sempre em todo lugar. Concreta.

sábado, outubro 12, 2024

Rir é muito diferente de sorrir.

De muitos modos, sou exatamente o mesmo desta foto. Claro, sou eu há exatos quarenta e cinco anos. Mas além dos quarenta e cinco anos que me separam daquele instante em que um impaciente e simpático fotógrafo me pediu para dizer “abacaxi” para que um sorriso qualquer finalmente surgisse no meu rosto, há um mesmo homem, de um mesmo olhar para as coisas todas.

Estava sentado no gira-gira, no fundo da escolinha, um prezinho que havia no Jaguaribe, zona sul de Osasco, e o fotógrafo e as professoras que acompanhavam a sessão já haviam tentado me fazer sorrir de muitas maneiras.

Eu não estava sorrindo e ainda hoje se precisasse ser fotografado no gira-gira da Justiça Federal, onde trabalho, eu também não estaria sorrindo.

Sou ainda um sujeito que gosta de gargalhar. Rir como um celerado cínico que ri de tudo. Mas sem sorrir. Acho que nem sei, afinal, além de simular com as bochechas. E todas as vezes em que alguém me pediu um sorriso, eu me lembrei daquele “abacaxi” que eu disse, que simulou um sorriso que não teria e não tenho.

Rir é muito diferente de sorrir. E toda vez que vejo esta foto que sobreviveu, eu me lembro disso. A gente vive tanto — e no entanto — somos o que éramos aos cinco anos de idade, quase nos mesmo termos. Quase que completamente.