segunda-feira, julho 08, 2024

Preparados.


Estejamos preparados para quando perdemos os dentes. Que não nos surpreendamos.  Caem os dentes, os cabelos e mesmo a juventude. Estejamos preparados. Estejamos preparados para quando perdemos pai, mãe, irmão  e todos aqueles que nos pareciam eternos. Estejamos preparados para quando perdermos o amor de sempre,  em viuvez ou por amarga revelação.

Estejamos atentos que a vida não é de nos perguntar se nos preparamos. A vida vem, cega, atropelando o certo e o duvidoso. Estejamos preparados para o maior dos fracassos, para grandes constrangimentos, e ainda seguir andando pelos escombros, sobrevivendo a toda bomba que explodir. 

Estejamos preparados para ouvir a mais triste história  e aceitar que somos personagens ruins nesta tragicomédia. Fiquemos em alerta, preparados para seguir respirando. Estejamos preparados para sermos menores que as pulgas.  Ridículos. Feios. Sós. Estejamos preparados para todos os arrependimentos. Para a culpa, para o medo e a fome. Estejamos preparados para quando não houver mais nada.  Nem ninguém a quem pedir perdão.

Estejamos preparados para quando houver apenas silêncio nos pensamentos. Estejamos docemente preparados inclusive para a morte  e o completo desaparecimento dos nossos mais queridos sonhos.

A vida é talvez apenas isso.  Preparar-se para tempestades que parecem nunca chegar  num tão longo verão. Tão longo que logo alguns se distraem. Mas a vida vem. Os dentes caem. Preparados ou não, nossos dentes caem. Convém estarmos de qualquer modo preparados.

quarta-feira, junho 26, 2024

Soneto n.° 30


Tivemos, esposa, filha e eu, a felicidade de ver na última sexta-feira, o espetáculo “Logo a escuridão vem nos fazer descansar”, em que Gabriel Braga Nunes apresenta sua interpretação musical para sonetos de William Shakespeare. Uma espetacular banda nos apresenta com perfeição e energia um bom punhado de versões para a poesia absolutamente melodiosa de Shakespeare. Sensacional. E de graça, no Teatro do SESI. 

E a vida é tanta que eu mesmo não me lembrava: ocorre que eu, na humildade, musiquei também uns sonetos de Shakespeare, mais precisamente na primavera de 2007. Depois de ter escrito o longo romance Fenices, descansava. Naquelas semanas, li vinte e oito peças de Shakespeare e estava também levemente obcecado pelos seus sonetos. 

E, vendo o trabalho de Gabriel Braga Nunes, me bateu uma vontade de mostrar agora ao menos um dos sonetos que dei interpretação e sonoridade, o Soneto n.º 30. Para registrar. Antes que a escuridão venha para minha eterna soneca.

Registrando também que minha pronúncia do inglês é uma mistura sem regra de pronúncias que ouvi por aí, na vida. Shakespeare também não cantaria sem sotaque uma música minha, sei bem disso. 

Agradeço ao espetáculo. Atiçou-me. Fez revoada na minha memória. Talvez eu ficasse mais dezessete anos sem me lembrar deste meu tão singelo exercício.