sábado, outubro 12, 2024

Rir é muito diferente de sorrir.

De muitos modos, sou exatamente o mesmo desta foto. Claro, sou eu há exatos quarenta e cinco anos. Mas além dos quarenta e cinco anos que me separam daquele instante em que um impaciente e simpático fotógrafo me pediu para dizer “abacaxi” para que um sorriso qualquer finalmente surgisse no meu rosto, há um mesmo homem, de um mesmo olhar para as coisas todas.

Estava sentado no gira-gira, no fundo da escolinha, um prezinho que havia no Jaguaribe, zona sul de Osasco, e o fotógrafo e as professoras que acompanhavam a sessão já haviam tentado me fazer sorrir de muitas maneiras.

Eu não estava sorrindo e ainda hoje se precisasse ser fotografado no gira-gira da Justiça Federal, onde trabalho, eu também não estaria sorrindo.

Sou ainda um sujeito que gosta de gargalhar. Rir como um celerado cínico que ri de tudo. Mas sem sorrir. Acho que nem sei, afinal, além de simular com as bochechas. E todas as vezes em que alguém me pediu um sorriso, eu me lembrei daquele “abacaxi” que eu disse, que simulou um sorriso que não teria e não tenho.

Rir é muito diferente de sorrir. E toda vez que vejo esta foto que sobreviveu, eu me lembro disso. A gente vive tanto — e no entanto — somos o que éramos aos cinco anos de idade, quase nos mesmo termos. Quase que completamente.

sábado, outubro 05, 2024


Não sou amargo e por vezes me parece que a amargura é mais um desvio de caráter que uma condição natural. Sempre andei de bom humor, até nas chamadas horas impróprias. Busco a leveza e trago comigo aquela proposição do carteiro Jaiminho e evito a fadiga e os desassossegos. 

Foi também aquele poeta Ricardo Reis quem me ensinou. Noutras palavras, ele dizia “não esquenta”. Aliás, pena que pouca gente se lembre daquele personagem genial de Tony Ramos, o Edgar, em A Comédia da Vida Privada, de 1994, que vivia metendo o copo de uísque na testa dos outros, dizendo “não esquenta”.

Disseram que era eu encarnado na televisão.

E de fato eu não me importo mesmo com muita coisa. Não me importo com o que falam de mim, o que pensam, julgamentos. Não me importo se me consideram um imbecil ou um gênio.

No entanto, uma coisa me traz questionamento: os supostos amigos que jamais fizeram qualquer apontamento, comentário, observação, qualquer palavra, sobre os meus trabalhos como escritor e músico.

Não digo de elogios, que isso nunca é coisa de se esperar, mas qualquer anotação, um “você que fez?” ou um “você, heim!” ou um “orra, que esforço”. Ou qualquer mísero grunhido ou miserável like.

Gente que me conhece há vinte, trinta anos, que despreza e não vê aquilo que é, efetivamente, o combustível e finalidade de minha vida.

Já disse, não esquento. Mas há algo a me dizer que o desprezo ofertado a minha obra deve ser traduzido sempre em algum outro tipo de desprezo, uma vez que não convém a amizade com quem nos enxerga pela metade.

quarta-feira, outubro 02, 2024

 

“Festa Igual” foi escrita em 19 de fevereiro de 2004, especialmente para o drama musical “Em outubro, flores!”. É a primeira canção do espetáculo que conta a história do boêmio trovador contratado para cantar para uma doente e meiga Amalle, uma de minhas personagens mais apaixonantes.

O lançamento desta versão se dá pela comemoração dos 20 anos da montagem que envolveu Kiko Pissolato, Juliana Mesquita e David Rock, e que foi um dos momentos mais incríveis de minha já razoavelmente longa existência.

Em alguns dias, a ser anunciado, a peça será publicada em versão digital no Amazon e versão impressa no Mercado Livre.

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