Dohla, uma de minhas personagens, diz em certo momento que é uma grande besteira recusar a embriaguez por medo da ressaca. E depois de uma noite bela, muito proveitosa, de uísque e alhures, num domingo chuvoso que é a verdadeira representação de uma ressaca nauseante, volto a pensar naqueles versos escritos há cerca de cinco anos. A ressaca é fundamental, parte essencial da própria embriaguez.
Nem digo que a ressaca precise ser feito um vendeval de ânsia e baixa pressão. Nem que precisemos de manchas pela pele, como aquelas que tive após um famoso porre de Miguelão, péssima e deliciosa pinga de coco cuja garrafa deve valer no máximo uns dois reais. E muito menos digo que deveríamos ficar por horas numa cama, a balbuciar toda sorte de arrependimentos e palavrões.
Não se louve o arrependimento na ressaca. Ressaca arrependida é coisa para gente muito, mas muito desencontrada. Pra quem não sabe da importância da transgressão e dos delírios induzidos. Ora, ficar a dizer "por que bebi tanto?", "por que cheirei mais?", "por que fumei daquele jeito?", é algo que o ajudará de alguma forma? Ressaca é pra curtir também, com serenidade de filósofo estóico, sem pesar as mazelas do mundo.
Curtir, como curtira antes, a embriaguez ou o "efeito", sabendo da importância desse antagonismo de sensações... Em ressaca, jamais criei. Jamais tive idéia alguma, nem procurei por isto. Jamais pensei em qualquer entrave da vida, nos amores tristes, nos arrependimentos. Em nada. Jamais briguei. Sempre soube transformar aquele período num leve coma, em que me sentia alheio a todo o mundo, inerte e absorto num vácuo imaginário.
É o que me dizia um velho professor: o nirvana de bêbado. Aquele momento em que se está só, purificadoramente só. Como hoje, neste domingo de céu escuro, em que compartilho tal solidão com a minha mulher que, neste momento, dorme um sono pesado e restaurador.